Sob as bênçãos de Scorsese: diretor produz Diane, o mais elogiado em Marrakech

MARRAKECH (Marrocos) - Convidado pelo 17º Festival de Marrakech para falar de sua obra em uma palestra com uma dupla de diretores do Marrocos (Laïla Marrakchi e Faouzi Bensaïdi), Martin Scorsese não segurou a onda e trouxe um filme novo consigo, que ele apenas produz - mas a palavras “apenas”, quando aplicada ao mito por trás de “Taxi driver” (1976), perde o sentido limitador e ganha contornos poéticos. Coube ao septuagenário a tarefa de ajudar o delicado drama “Diane”, de Kent Jones, a sair do papel, dando uma nova dimensão a uma cantora e atriz de 71 anos famosa na TV americana há quatro décadas, mas um tanto esquecida. Mary Kay Place levou Marrakech às lágrimas no papel que dá título ao longa-metragem mais impactante na seleção oficial competitiva do evento marroquino em 2018, até agora. É uma trama sem viradas bruscas, sobre o dia a dia de uma viúva solitária, devotada a boas ações para os sem-teto e os famintos de Massachusetts, que se vê cercada de perda. Mas mesmo sendo acossada pela morte, ela não perde o rebolado.

“Existe hoje uma nova geração de grandes filmes feitos com pouco dinheiro, cujo maior dilema é encontrar um cinema para serem vistos. A tarefa de festivais como este é fazer com que a cinefilia ajude estes filmes, neste momento em que as superproduções de Hollywood fazem milhões e dominam o circuito”, disse Scorsese a uma multidão de marroquinos (e de jornalistas de diferentes países), em um colóquio lotado de gente.

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Conhecida coadjuvante de séries televisivas americanas como "Biglove" e "M.A.S.H", Mary Kay Place recebeu de Kent Jones um papel sob medida (Foto: Divulgação)

A conversa começou pouco depois de uma salva de aplausos para “Diane”, que marca a estreia de Kent Jones na direção de longas de ficção. Autor de livros sobre a cultura audiovisual, ele é o curador do Festival de Nova York, sendo conhecido como cineasta pelo documentário “Hitchcock/Truffaut” (2015). Mas a linguagem documental dá lugar à mais lúdica fabulação em vários trechos da saga existencialista da personagem.

“Há 20 anos, eu vivo com a ideia deste filme na cabeça, com base em episódios da minha família. Mas foi Mary Kay que fez dele o que ele pode ter de bom. Foi escrito para ela”, disse Jones à plateia, informando que sua estrela não veio ao Marrocos por conta de problemas pessoais em Los Angeles. “É um filme sobre as mulheres de 70 anos e seu olhar sobre a vida”.

Conhecida lá fora por séries como “Big love”, “M.A.S.H.” e “Mary Hartman, Mary Hartman”, pelo qual ela ganhou o Emmy, em 1977, Mary Kay é uma prolífica coadjuvante em Hollywood, que, enfim, ganha a chance de dar a volta por cima em sua profissão - é a favorita a prêmios em Marrakech. Seu desempenho em “Diane” evoca um cult de Scorsese: “Alice não mora mais aqui” (1974), que deu o Oscar de melhor atriz a Ellen Burstyn.

Sua Diane não lida bem com a solidão, em especial diante do calvário de saúde de suas parentes. Para piorar, seu filho, Brian (Jake Lacy), é um dependente químico que troca as drogas pelo fundamentalismo religioso. E tudo isso se passa enquanto Diane reavalia seus prazeres, dores e sonhos. A angústia impressa na trama rendeu ao filme o prêmio de melhor roteiro no Festival de Tribeca, em Nova York. Na sequência, ele recebeu o prêmio do júri ecumênico no Festival de Locarno, na Suíça. “Há uma responsabilidade muito grande nas mãos dos diretores americanos neste momentoem que estamos numa discussão sobre um mundo sem fronteiras”, disse Jones. “A saga de Diane quer desafiar limites”.

Hoje, a competição pela Estrela de Ouro de Marrakech segue com duas diretoras pautadas pela sutileza: Lila Avilés, do México, faz uma análise de luta de classes num hotel com “La camarista”, e Sakaya Kai, do Japão, investe no suspense em “Red snow”, no qual investiga o sumiço de um menino. Até sexta, o júri encabeçado pelo diretor James Gray (“Z - A Cidade Perdida”) tem filme para assistir, escolhendo os ganhadores no sábado, quando o festival termina.

Hoje, Marrakech confere, em projeção hors-concours o esperado “Roma”, que deu ao mexicano Alfonso Cuarón o Leão de Ouro em Veneza. Feito com a grife Netflix, para fazer carreira no canal de streaming da web, este drama em P&B sobre a desestruturação de uma família de classe média do México nos anos 1970 vai ter exibição em tela grande por aqui, ampliando sua campanha para o Oscar.

*Roteirista e crítico de cinema