Rir é sempre o melhor remédio: confira crítica da peça 'Acabou o pó'

A vida urbana, estressada, agitada tirou um dos maiores prazeres dessa vida. A conversa que se jogar assunto fora, falar bobagem, trocar confidências, dizer as coisas que a gente não diz nem para o travesseiro. Compartilhar o sentimento de compadrio em que cada pessoa vira ao mesmo tempo para o outro pai, mãe, filho, irmão, amante, que se ri, que se chora, forma-se um laço praticamente indissolúvel. É ficar à vontade, deixar-se levar, misturar os assuntos, ir fundo, ficar raso, mas o que importa é a balança equilibrada. Tudo isso está retratado à perfeição em “Acabou o pó”, em cartaz no Teatro Candido Mendes.

É no templo do besteirol, o Teatro Candido Mendes, em Ipanema, que Daniel Porto, com 23 anos, escreveu o texto encenado pela primeira vez em 2015, vai usar e abusar daquilo que caracteriza o gênero. O abuso, o escrachado, mas sem qualquer crítica à vida das duas personagens, retratando as mazelas do cotidiano de duas vizinhas de uma área popular de São Gonçalo, Nena e Kelly, estão presentes nos diálogos afiados, na reprodução do linguajar popular, na esperteza e visão do povo do seu mundo.

Macaque in the trees
Celso Andre e Anderson Cunha interpretam as amigas Kelly e Nena, sob a direção de Daniel Dias da Silva (Foto: Divulgação)

Dessa dificuldade de reproduzir uma outra prosódia, de um gênero e um grupo diferencial diverso de si, é que Daniel ocupa o lugar de um dos melhores dramaturgos da nova geração. Do povo da rua, do cantar que se ouve nos pontos populares, nos transportes é que nascem Nena e Kelly, suas personagens alegóricas, mas muito próximas de todos nós. Teatro clássico na veia, sem medo ser feliz. Unidade de tempo, pois a ação é em tempo real; unidade de lugar, pois tudo se passa no ambiente da cozinha e verosimilhança absurda é a opção do autor para estrear fazendo teatro como deve ser.

Em cena, os atores Anderson Cunha (Nena) e Celso Andre (Kelly), travestidos de mulheres, atuam com muito talento, sob a direção de Daniel Dias da Silva (“O Princípio de Arquimedes”). Daniel foge completamente ao caricato, ao humor fácil de transformistas. A movimentação dos dois, na ação passada em tempo real em uma copa/cozinha , é construída nos pequenos gestos. No mexer dos cabelos de Kelly, na manipulação das pequenas peças de roupas que Nena lava, na voz que se altera para se coerente com o momento emocional, Daniel Dias opta por ser mimético ao gestual das pessoas reais.

O cenário e o figurinos de Karlla de Luca são verdadeiros achados, pois reproduzem com talento o que é mais difícil quando ser ter significado sem ser mimético. Também nos elementos cênicos, a busca do sentido é bem resolvida. A roupa de Kelly sedutora, os cabelões, os brincos de bobis de cabelo contrastam com o uniforme de lycra e os cabelos presos de Nena. O que marca a diferença entre as duas amigas é apenas a casca. A mesma coisa vale para o cenário repleto de elementos que mostram o capricho e o cuidado com a casa. E na arrumaçao da festa do filho de Nena, Kelly se esmera. Nessa sequência é o ponto alto da peça com as duas mulheres com cabeça de Peppa Pig.

“Acabou o pó” é uma bela metáfora do que deveria ser tudo o que acontece no mundo entre as pessoas. Na vida e na morte, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença que existe e corre a amizade de Nena e Kelly. Ri-se o tempo todo, pois é comédia rasgada. Piadas, pequenos trejeitos, ridicularias levadas a série, microquiproquós são a base da conversa e da troca profunda entre as duas amigas. Laço que já tem passado forte, mas que evidente terá futuro. Assim é a obra de Daniel Porto. Uma abertura magistral aos 20 anos como “O pastor”, que continuou em “Acabou o pó” e outros textos, só nos dá a certeza do futuro do autor.

*Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

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SERVIÇO

ACABOU O PÓ Teatro Candido Mendes (R. Joana Angélica, 63 - Ipanema; Tel.: 2523-3663) - Sex. e sáb., às 20h; dom., às 19h - Ingressos a R$ 50 - Classificação: 12 anos

Capacidade: 103 lugares