A gênese do medo: confira a crítica de 'Torre. Um dia brilhante'

O medo sempre representou uma ferramenta com a qual o poder se utilizaria para dominar, e criar a partir daí um séquito de inumanos comandados, prontos para servir de massa manipulável. Pois parte exatamente da gênese do medo a narrativa proposta pela polonesa Jagoda Szelc para seu longa de estreia, esse “Torre. Um dia brilhante”. O ancestral medo da perda, da dita maior de todas as perdas, é o ponto de partida da história das irmãs Kaja e Mula; a primeira abriu mão de sua filha biológica, que foi criada pela tia como se fora tal; esse segredo as une. E durante o batizado de Nina, o reencontro familiar provocará as reviravoltas necessárias para a desestabilização geral.

O palco metafórico para o descontrole e a paranoia passa pela relação fraterna, até o padre local instável ao seu ofício, a matriarca em declínio mental que retoma suas funções familiares (até quando?), ao pai da menina, que precisa ele também equilibrar o universo em ruína à sua volta.

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Nina (Laila Hennessy) está no centro de uma disputa muda de um casal no longa da polonesa Jagoda Szelc (Foto: Divulgação)

O medo irracional do terror, que o cinema vendeu como produto de gênero, é a moldura criada por Jagoda para construir um material imagético de impacto inegável, com imagens perturbadoras e uma banda sonora que o aproxima do sinistro. Tudo isso para criar uma delicada metáfora política sobre a ascensão do descontrole sobre o que não se conhece, por isso temido. A produzir uma sociedade que reproduz a espetacular cena final do filme à exaustão, inertes.

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Torre. Um dia brilhante: **** (Muito Bom)

Cotações: o Péssimo; * Ruim; ** Regular; *** Bom; **** Muito Bom