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Cultura

Popstar do real

Famoso por ter no currículo um Urso de Ouro e um Leão dourado, o documentarista Gianfranco Rosi, de 54 anos, prepara longa sobre a vida noturna no Oriente Médio

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Ninguém sabe ao certo o que Gianfranco Rosi, cineasta italiano nascido na Eritreia há 54 anos, quer dizer com a expressão “vida noturna” ao associá-la à intolerância que rege o Oriente Médio, mas já está certo que a região será cenário e tema de seu novo filme, previsto para estrear no primeiro trimestre de 2019. Seu atual projeto se chama “Notturno” e, nas poucas descrições dadas por este aclamado diretor – em 2013, ele saiu do Festival de Veneza com o Leão de Ouro por “Sacro GRA”; três anos depois, ganhou o Urso de Ouro da Berlinale, com “Fogo no mar”, indicado ao Oscar em 2017 -, sabe-se que será um ensaio sobre “fronteiras”: “Muros deixam de ser apenas demarcações simbólicas no momento em que eles mudam destinos”, disse Rosi, em entrevista em um festival no Qatar.

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Famoso por ter no currículo um Urso de Ouro e um Leão dourado, o documentarista Gianfranco Rosi, de 54 anos, prepara longa sobre a vida noturna no Oriente Médio (Foto: Berlinale/Divulgação)

Lá, ele foi tratado como um popstar. Aliás, é assim que ele é visto mundo afora: nem Michael Moore (“Tiros em Columbine”) hoje tem tanto prestígio quanto ele. Há quem diga que “Notturno” já é barbada para a seleção do próximo Festival de Berlim (7 a 17 de fevereiro). Mas há quem fale no interesse de Cannes por ele: quem sabe ele possa ter uma Palma dourada em seu rol de prêmios. Fala-se que seu objetivo agora é ter uma turma de jovens árabes como guias de sua narrativa, focada em seu assunto mais recorrente: a invisibilidade. E sobre ela que ele falou ao JORNAL DO BRASIL em recente entrevista na França.

O senhor mantém “Notturno” a sete chaves, em segredo total. Mas há curiosidade de saber o quanto a badalação em torno de “Fogo no mar” ajudou esse novo projeto?

GIANFRANCO ROSI: Não sou estrela: a luz dos meus filmes precisa cair sobre pessoas que não tiveram as mesmas chances de estudo que eu tive. Por respeito àquilo que pude estudar, assumi a responsabilidade de fazer um tipo de cinema que defende causas: no caso, dar visibilidade a pessoas de quem a mídia desdenha. O sucesso dos filmes recentes que fiz me deixa feliz não por questões de vaidade pessoal, mas por dar ao cinema documental uma chance de alcance popular maior.

O que te fascina no cinema documental?

A possibilidade de usar dispositivos de observação de material vivo não fabular para questionar o claustro de “filme político” e produzir uma narrativa dos afetos. Não sei o quanto você, brasileiro, enxerga isso, mas o documentário, por sua natureza de orçamento mirrado, em comparação com a ficção, parece necessitar um sentido político para existir. Discordo. Documentários podem ter bandeira, mas ele são exercícios de linguagem antes de tudo. A instância poética da narrativa documental é a liberdade de se ver diante de um mundo palpável, belo, mas com cicatrizes.

Como o senhor desenvolveu sua estética de observação?

Venho da tradição de Rossellini. Tenho identidade italiana. A Itália tem uma tradição muito forte de documentaristas e também de diretores que misturaram a realidade com a ficção, criando, entre outras coisas, o movimento chamado de Neorrealismo. Foi um movimento que revolucionou o cinema nos anos 1940, buscando a veracidade como cerne estético. Não é desta linhagem que eu venho, embora eu a respeite muito. Estudei nos EUA e me formei no mundo. Referências deste ou daquele cineasta são úteis só até o momento em que você liga a câmera pela primeira vez: dali pra diante só tem você. E esse “eu lírico”, que eu sou com a câmera, é alguém que tenta entender o que existe de verdadeiro e de falso por trás de cada gesto e de cada palavra que registro. O que me deixa compreender isso: o ambiente à minha volta. Meus “protagonistas” são os lugares em que filmo. Em “Fogo no mar”, por exemplo, no qual falo sobre refugiados políticos, cada ação é determinada pela maneira como aquele local, com sua paisagem influencia na vida de seus habitantes. Inclua entre essas influências a tragédia externa.

Qual é o dispositivo narrativo que injeta poesia em um documentário?

Sutileza é um deles. A câmera tem que ver sem ser vista. A câmera deve fluir sem arroubos de estilo. Mas, acima de tudo, um documentário necessita de uma relação de confiança entre o realizador e o documentado. Sem confiar, ninguém se revela nem se desvela diante da câmera. E a câmera documental existe para desvelar aquilo que se olha, mas não se vê na inteireza.

Rodrigo Fonseca*

Especial para o JB

*Roteirista e crítico de cinema.