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Cultura

Um ladrão de cena à moda hitchcockiana

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Todo blockbuster produzido pela Marvel costumava reservar aos quadrinhófilos uma brincadeira do tipo “Onde está Wally?”, feita para acharmos o paradeiro do homem por trás da Casa das Ideias – apelido da editora.

Tratava-se de Stan Lee. Onde menos se esperava, lá estava o editor, roteirista e ator de um papel só (o de si mesmo), para roubar um sorriso de seu público em uma diminuta aparição, assim como Alfred Hitchcock (1899-1980) também costumava fazer em seus filmes de suspense.

No Brasil, onde seus filmes chegavam ao público de massa através de cópias dubladas, Lee ainda tinha um adicional: era sempre bem servido pela voz de Carlos Seidl, que fez história por aqui dublando o Seu Madruga, do seriado mexicano Chaves – coisa de nerd, adjetivo que o empresário assumiu para si próprio, depois de entregar o posto de editor de heróis como o Homem-Aranha, os X-Men e o Hulk a outros gênios como Joe Quesada, já na década de 1990.

Stan Lee havia ganhado fama durante os anos 1960, quando a HQ “Fantastic four” (“Os quatro fantásticos”) se tornou um fenômeno de vendas, a partir do mercado dos Estados Unidos. Apoiado em parceiros como Steve Ditko e Jack Kirby, inaugurou uma linha editorial que marcou época, antenada com a contracultura: humanizar as moças e os rapazes sob uniformes coloridos. Para Peter Benjamim Parker – identidade secreta do Homem-Aranha –, tão importante quando encontrar o ponto fraco de seu arqui-inimigo Duende Verde era arrumar um jeito de conseguir pagar o aluguel atrasado de sua Tia May.

Não por acaso, Stan Lee introduziu a discussão da inclusão racial nas histórias em quadrinhos com o hoje adorado Pantera Negra. E mostrou que o racismo pode ter várias latitudes ao revelar a intolerância aos mutantes nas tramas dos X-Men.

Como autores, ele e o francês Jean Giraud Moebius (1938-2012) criaram uma das melhores graphic novels de todos os tempos: “Surfista Prateado – Parábola”, publicada no final da década de 1980, em que o herói era confundido com o Messias cristão.

Lançada no Brasil pela primeira vez em 1989, através da Editora Abril, “Surfista Prateado – Parábola”, ganhou uma nova edição brasileira, de luxo neste ano, com capa dura e 92 páginas.

*Roteirista e crítico de cinema