Tem Darín inédito, mas só na TV

Um ano e meio depois de sua passagem por Cannes, "A Cordilheira", inédito no circuito nacional, entra na grande dos canais a cabo no Brasil

Ciente das filas quilométricas que se formam na porta de cinemas de arte, como os do Grupo Estação quando tem filme inédito de Ricardo Darín em cartaz, o Festival do Rio 2018 já sabe que “Um amor improvável”, o novo trabalho do muso latino-americano, há de lotar suas salas durante o evento, que começa nesta quinta e vai até o dia 11 de novembro. Mas “El amor menos pensado” - no qual o astro contracena com Mercedes Morán na trama sobre a reconstrução afetiva de um casal cinquentão – já conta com distribuição assegurada ao fim do festival.

O mesmo não se pode dizer de “A Cordilheira”, que está há um ano e meio mofando na fila dos “sem-tela”. Lançada em Cannes, em 2017, na mostra Un Certain Regard, esta produção de US$ 6 milhões, vista por cerca de 640 mil pagantes no circuito argentino e indicada a 25 prêmios internacionais, cansou de esperar vaga nos cinemas brasileiros e vai diretamente para a TV. Neste domingo, às 21h, o longa-metragem de Santiago Mitre (realizador dos aclamados “O estudante” e “Paulina”) estreia no canal a cabo MAX. Tem reprise no dia 29, às 20h, e no dia 31, às 16h e às 23h50.

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Ricardo Darín contracena com Mercedes Morán no filme "Um amor improvável", atração do Festival do Rio (Foto: Divulgação)

Agraciada com o troféu Platino (o Oscar da latinidade) de melhor trilha sonora (coroando a excelência melódica de Alberto Iglesias), o filme - lançado na França com o título de “El presidente” – aborda um conclave de líderes políticos das Américas, tendo intrigas de corrupção e pecados afetivos pessoais em seus bastidores. “É triste notar que todos nós da América Latina nos identificamos com a discussão da corrupção”, disse Darín ao JB, em Cannes, onde esteve de volta este ano com “Todos lo saben”.

Em nenhum momento dos 114 febris minutos de “A Cordilheira” (tradução literal no Brasil) se fala o nome da Petrobras, mas é o petróleo brasileiro que serve de combustível às negociatas políticas retratadas neste thriller moral e cívico com Darín. O Brasil está representado na figura do presidente Oliveira Prete, vivido com uma ironia saborosa pelo ator Leonardo Franco, da série “Preamar”. Ele é o alvo e o inimigo de todos, menos do líder argentino, o atormentado Hernán Blanco. E este papel ficou nas mãos de Darín.

“Não costumo me definir como um diretor político, pois meu foco está nas angústias humanas, mas falar dos dramas de governo é fundamental para entendermos o mundo à nossa volta”, diz Mitre em entrevista por e-mail ao JORNAL DO BRASIL. “Já se passou muito tempo desde que rodamos ‘La cordillera’, por isso temos agora uma outra América Latina diante de nós, com muitas crises, com transformações nos processos eleitorais, que trazem ecos da extrema direita em muitos lugares. De certa forma, os presidentes presentes na trama do filme debatem a criação de uma empresa multinacional de hidrocarburetos. Pactos, alianças e discussões são apresentados no longa, num debate sobre a conformação desse projeto e o quanto ele pode trazer de ganhos ilícitos para seus idealizadores e de ganhos concretos para o continente”

Roteirista de “Abutres” (2010), Mitre chamou a nata das atrizes e atores das Américas hispânicas para o elenco, como os chilenos Paulina García (de “Glória”) e Alfredo Castro (de “O Clube”), a argentina Dolores Fonzi (de “Truman”) e o espanhol radicado em solo mexicano Daniel Giménez Cacho (de “Má Educação”), além do americano Christian Slater (“Mr. Robot”) e do brasileiro Leonardo Franco. Centrada nas crises morais na América do Sul, o enredo do longa põe Hernán Blanco, papel de Darín, entre as disputas com o líder brasileiro e uma crise familiar ligada à saúde mental de sua filha (Dolores Fonzi). “Este filme atomiza uma certeza romântica da política de que um só homem pode nos salvar. Mas todos os homens e todas as mulheres têm um peso nos rumos da política”, diz Darín. “Precisamos repensar o que a América Latina precisa para respirar além de suas crises”.

* Roteirista e crítico

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Os incompreendidos da fé

Ímã de controvérsias por onde passa, com seu olhar crítico sobre o papel sociabilização das religiões, “A prece” (“La prière”) é comparado a um clássico moderno – “Os Incompreendidos” (1959), de François Truffaut – em seu olhar sobre a juventude, referendado por uma série de elogios no Festival de Berlim. Saiu de lá com o prêmio de Melhor Ator para Anthony Bajon, de 24 anos, cuja comovente atuação como um delinquente juvenil assolado pelas drogas comoveu a capital alemã.

Mais recente experiência do astro francês Cédric Kahn (de “A economia do amor”) na direção de longas-metragens, deste drama sobre redenção abriu debates quentes sobre a representação da fé na 42ª Mostra de São Paulo, que termina nesta quarta. Antes, nesta segunda, ele passa de novo em terras paulistas, às 16h30, no Espaço Itaú Augusta. De lá, ele vem para o Festival do Rio (que começa quinta e vai até 11 de novembro), apresentar o talento de Bajon aos cariocas.

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Drama francês "A prece" evoca Truffaut ao falar do papel da religião na luta de jovens viciados (Foto: Divulgação)

“Nosso empenho durante o processo de filmagem era conseguir que esta história sobre a luta de alguém que quer se desintoxicar possa tocar as pessoas de maneira universal, ao mostrar o descontrole das emoções”, disse Bajon ao JB em Berlim, em fevereiro.

Respeitado como cineasta por longas como “A vida vai melhorar (2011), Khan surpreendeu a crítica com a maturidade com que dirige “A prece”. “A proposta aqui não é julgar a Igreja, nem elogiar a dimensão redentora que um grupo religioso pode ter para alguém que está sofrendo. Meu foco se divide entre a autodescoberta e a solidão. É um filme sobre o calvário de sair de um inferno aberto por escolhas erradas”, disse o cineasta francês, que só no fim de semana de estreia de seu longa na França arrebatou 86 mil pagantes.

Em “A prece”, Kahn acompanha a perseverança de um grupo jovem da Igreja Católica, que tem na freira Myriam (a veterana cantora e atriz alemã Hannah Schygulla) uma referência de fé, para se livrar da tentação das drogas e do álcool. Muitos foram parar ali para se salvarem do vício, como é o caso do dependente químico Thomas (Anthony Bajon), agressivo diante da Palavra de Deus. De cara, o filme parece querer investigar o papel do Catolicismo e da liturgia de Cristo na recuperação de adolescentes. Mas, com poucos minutos, o cineasta deixa claro que a religião é só um detalhe no arranjo narrativo seco que criou, lembrando o legado de Truffaut.

“Nos sets, Anthony realmente lembrava o personagem de Truffaut em ‘Os incompreendidos’, Antoine Doinel, que era o alter ego dele”, disse Kahn ao JB. “Mas não fiz uma releitura muito consciente do que aprendi vendo Truffaut. A questão era simplicidade: olhar o realismo sem feri-lo com muitos adereços fabulares. Esse era o caminho para levar às telas o sacrifício da fé”.



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