Horror à brasileira nas telas inglesas

Diante do recente boom do terror no cinema brasileiro, endossado pelo prestígio mundial de “As boas maneiras”, o mais assombrado dos gêneros audiovisuais serviu como vitrine para as mazelas morais e sociais do país no BFI - London Film Festival 2018 graças ao potente “Morto não fala”, vindo lá de Porto Alegre. Ímã de elogios por onde tem passado, mundo afora, de julho para cá, o primeiro (e, de fato, assustador) longa-metragrem de estreia de Dennison Ramaho (diretor de curtas cults como “Ninjas”) põe Daniel de Oliveira a bater papo com defuntos. Na trama, o ator vive Stênio, funcionário do necrotério de São Paulo que tem o dom de ouvir os espíritos de quem acabou de morrer. E vai usar essa habilidade para se vingar da própria mulher (papel de Fabíula Nascimento), que está tendo um casa com o dono da venda (Marco Ricca).

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Daniel de Oliveira conversa com defuntos em "Morto não fala", no qual vive um funcionário do necrotério (Foto: Divulgação)

“Tem um filme dos anos 1970 do George A. Romero, ‘Martin’, com o qual eu diaoguei muito para construir o universo de Stênio. Gosto do Romero, porque ele tem um olhar para uma América de subúrbio, de periferia Foi o que eu quis fazer, ao misturar o Além à questão da violência do dia a dia no Brasil”, disse Dennison, cujo longa vai concorrer na Première Brasil do Festival do Rio, em novembro.

Em sua seleção internacional, o Festival de Londres viu neste domingo o australiano Hugh Jackman (o ex-Wolverine) ser engolido pela atriz Vera Farmiga no drama eleitoral “The front runner”, de Jason Reitman. O diretor de “Juno” (2007) e do recente (e magistral) “Tully” revive a estética realista quase documental da Hollywood dos anos 1970 para recriar a saga do candidato Gary Hart. Favorito dos americanos para ser o titular da Casa Branca em 1988, Hart teve sua popularidade esmagada após ser revelado que ele traiu sua mulher, vivida por Farmiga. O moralismo em que Reitman afoga Jackman só é dissipado pra aguerrida atuação de Vera, que escava múltias camadas dramáticas na composição de sua personagem.

Vera só não brihou mais no BFI - London Film Festival do que Nicole Kidman, que protagoniza “Destroyer”, o mais visceral de todos os longas já exibidos no evento desde seu início, na quarta passada. Com uma maquiagem que envelhece seu viçoso rosto, Nicole vive uma detetive decadente neste thriller de Karyn Kusama, favorito a prêmios por aqui. (R.F.)