Suassuna em dois atos: No Glauce Rocha, peça baseada na vida do escritor tem última encenação hoje

Na Praça Onze, texto do dramaturgo está em cartaz até o dia 28

Na mira de seis cavaleiros representados por atores da companhia de teatro Ciclomáticos, Ariano Suassuna é homenageado em peça inspirada na sua obra, que tem última apresentação hoje no Teatro Glauce Rocha.

Foi em 16 de julho de 1927 que o escritor e dramaturgo nasceu na Cidade da Parahyba, capital do Estado que, entre 1924 e 1928, foi governado por seu pai, João Suassuna (1886-1930). Seu nascimento, nas dependências do Palácio da Redenção, marca a primeira das seis estações inspiradas em sua vida e obra para o texto da peça “Ariano, o Cavaleiro Sertanejo”.

Radicado no Recife, onde viveu até a morte, em 23 de julho de 2014, ele nunca se conformou com a mudança do nome de sua cidade natal para João Pessoa, sucessor de seu pai no governo paraibano e cuja família foi acusada de ter sido mandante do homicídio dele, em outubro de 1930, no Rio de Janeiro, durante a Revolução de 1930 – o próprio João Pessoa já havia sido assassinado três meses antes, quando era candidato a vice-presidente da República na chapa encabeçada por Getúlio Vargas.

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O grupo teatral Ciclomáticos rende homenagem a Ariano Suassuna através de peça inspirada em sua obra, que encerra temporada hoje (Foto: Divulgação)

A morte do pai, sofrida por Ariano aos três anos, marca a segunda estação da peça, que, no entanto, não se trata de uma biografia, como destaca o autor e diretor Ribamar Ribeiro.

“Estamos poetizando a vida dele, pegando referências de sua obra”, explica ele, que dividiu a peça em duas partes: uma com os seis cavaleiros à procura de Ariano, o cavaleiro principal que lhes serve de inspiração; outra com eles vivenciando a trajetória do escritor, marcada pelas seis estações. “Quatro não seriam suficientes”, brinca o diretor.

Após a morte do pai, a terceira estação aborda o encontro do cavaleiro nordestino com o Diabo, faz ainda referência a “O auto da compadecida” (1956).

Um encontro bem mais agradável – com a mulher, Zélia – marca a quarta estação. Já na quinta, o cavaleiro encara a Moça Caetana – lenda popular nordestina, ela foi contada em versos por Ariano, em poema sobre a mítica mulher sedutora que, qual uma sereia, atrairia os homens para a mata, onde se transformaria em onça e os devoraria.

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Escrita em 1950, "Torturas de um coração" está em cartaz com a Companhia Oráculo (Foto: Divulgação)

Por fim, os seis cavaleiros enfim se encontram, na sexta estação, a “grande revelação”, como detalha o diretor e autor. “Não uso trechos da dramaturgia do Ariano Suassuna, mas de alguns depoimentos dele, em entrevistas, pequenas frases de um homem que teve grande importância em sua vida, incluindo questões políticas e culturais”, justifica Ribeiro, que ainda ambientou a peça na fictícia cidade de Armorial – nome do movimento idealizado pelo escritor para criar uma arte erudita com elementos da cultura popular nordestina.

Entremez de um mamulengo

Enquanto uma peça baseada na vida de Suassuna encerra temporada, outra, de autoria dele, inicia, neste fim de semana, temporada que vai até o dia 28 de outubro, na Praça Onze.

Escrita em 1950, “Torturas de um coração” está em cartaz no Teatro Gonzaguinha, com a companhia de teatro Oráculo, em atividade desde 1996.

A trama se passa na Cidade de Taperoá, onde vivem Benedito, Marieta, Cabo Setenta, Afonso Gostoso e Vicentão. Benedito é apaixonado por Marieta e está disposto a conquistar o coração de sua musa, que, entretanto, também é disputado por Vicentão e pelo Cabo Setenta. Mulher solitária e sonhadora, ela vive à espera de um amor forte e valente, ignorando os sentimentos de Benedito. O protagonista se vale de uma grande artimanha, porém, e passa os dois valentões para trás, conquistando o coração de sua amada. Toda a história se passa em um ambiente lúdico, de humor e muita música, ao estilo de Ariano Suassuna.

O autor deu a esta peça o subtítulo“Entremez para mamulengo”, dentro da concepção que, posteriormente, inspiraria outras obras dele, como “A pena e a lei”, de 1959, em três atos. “Entremez” eram as chamadas dramatizações curtas apresentadas entre os atos de peças longas, especialmente na Espanha do Século XVII.

Mamulengo, por sua vez, é uma corruptela, adotada por Suassuna, da expressão “mão molenga”, como as dos artistas que manipulam fantoches.

Com direção de Wagner Brandi, a atual montagem de “Torturas de um coração” tem o próprio diretor no elenco, ao lado de Gilson Gomes, Alisson Minas, Thiago Prado, Thamás Morelli e Willian Freitas.

Serviço

ARIANO, O CAVALEIRO SERTANEJO

Teatro Glauce Rocha (Av.Rio Branco, 179 - Centro; em frente às estações Carioca de Metrô e VLT; Tel.: 2220-0259). Hoje, às 19h. Entrada: R$ 30 e R$ 15. Capacidade: 202 lugares. Duração: uma hora. Classificação: 12 anos.

TORTURAS DE UM CORAÇÃO

Teatro Gonzaguinha (R. Benedito Hipólito, 125 - Praça Onze). De sexta a domingo, às 20h30. Até 28/10. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Capacidade: 130 lugares. Duração: uma hora. Classificação: 12 anos



Escrita em 1950, "Torturas de um coração" está em cartaz com a Companhia Oráculo
O grupo teatral Ciclomáticos rende homenagem a Ariano Suassuna através de peça inspirada em sua obra, que encerra temporada hoje