Uma espécie de nascimento: confira crítica de 'Djon África'

Djon África não sabe, mas nasceu Miguel, na Cidade do Cabo, bem longe do Portugal onde vive. Ao ouvir na rua que é muito parecido com seu pai, uma chama nasce dentro dele, e esse fogo pela própria identidade passa a ser sua meta, de tom tímido até o explícito, sem que ele possa notar. Essa busca pelas origens é um tema recorrente que remete aos primórdios do próprio cinema, mas que nunca esteve tão em voga quanto hoje, em tempos de desconhecimento pessoal, de apatia e de incomunicabilidade. Saber quem somos pode ser muito mais que a porta rumo à verdade, mas encontrar dentro de si alguém desconhecido, porém autêntico.

Macaque in the trees
Personagem central busca as suas origens (Foto: Divulgação)

Os diretores Filipa Reis e João Miller Guerra passaram por Roterdã e pelo Olhar de Cinema, vestindo as roupas que Jean Rouch um dia lhes apresentou, o processo de desconstrução só fará sentido se primeiro nos construirmos adequadamente. O que eles montam é um quadro distanciado do homem Djon África, não à toa um codinome, visto por reflexos, vidros, à distância... até se tornar o homem que procurava ser, de dentro pra fora, e não o contrário. E aí, sim, em expressivos closes.

A jornada desse herói errante é realçada pelas lentes de Vasco Viana (o fotógrafo do magnífico “A fábrica de nada”, cujo diretor - Pedro Pinho - assina o roteiro aqui junto de Guerra), que pinta com gradativa luz e brilho um processo de descoberta tão natural quanto fascinante, a de um homem que só no interior do mundo descobriu os próprios. Interior e mundo.

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DJON ÁFRICA: *** (Bom)

Cotações: o Péssimo; * Ruim; ** Regular; *** Bom; **** Muito Bom