Horror transformado em amor: confira crítica da peça 'Memórias do esquecimento'

Na última terça-feira à noite, fui assistir à peça “Memórias do esquecimento”, baseada no livro do jornalista e escritor gaúcho Flávio Tavares, cheia de medo. Meu receio era o de que não conseguisse suportar a montagem protagonizada pelo ator Bruce Gomlevsky no Teatro Poeirinha, em Botafogo. O que teriam realizado com as dolorosas recordações de Flávio? Conheço bem o texto. Escrevi sobre ele em 1999 e na ocasião batizei a resenha com o título de “O homem que teve várias mortes e viveu para contar”. Sobreviveria à peça teatral ou arrebentaria de emoção?

Sobrevivi. Porque novamente as palavras de Flávio Tavares exerceram sobre mim – e creio que sobre o público inteiro – sua magia ou feitiço. Pronunciadas pelo ator, elas alaram no ar e se transformaram em carne e espírito vivos, envolvendo a todos os presentes. Pois pior que fosse a cena descrita, impossível não se deixar impregnar por aquelas palavras de fogo, duras, irrespiráveis, mas que também continham sensibilidade, fraternidade e poesia. Fosse outro o autor, apenas nos golpeariam como os gritos. Mas o escritor gaúcho sabe lidar com o irrespirável, descrever vivências as mais horríveis possíveis fazendo com que delas participemos com dor, dilaceramento, e ao mesmo tempo sintamos a fragilidade da condição humana, sua capacidade de redenção e de perdão.

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Gomlevsky segue literalmente os relatos de Flávio (Foto: Dalton Valerio/Divulgação)

Com pequeninas modificações, Bruce Gomlevsky segue em sua atuação quase que literalmente o relato narrado no livro hoje clássico. O que não acontece por acaso, já que o texto foi escrito pelo próprio autor de “Memórias do esquecimento”. O monólogo começa com o sonho recorrente, aquele no qual o ex-prisioneiro tenta plantar inúmeras vezes o pênis num vaso para que cresça de novo, após a saraivada de choques que levara a ponto de o membro ter adquirido marcas roxas concêntricas bem escuras. Seu receio, no sonho, era o de que o perdesse para todo o sempre.

São duas as passagens mais atrozes. A prisão e tortura no Batalhão Militar da Barão de Mesquita, na Tijuca, e a prisão e tortura no Uruguai. Duas formas de tortura completamente diferentes. A primeira com choques elétricos em todas as partes do corpo, com exceção do lado esquerdo do coração, porque a morte seria rápida, e a segunda com falsos fuzilamentos ou “penduração” no teto. Na rua Barão de Mesquita, trituraram o corpo e a alma do jornalista; já no Uruguai o mataram duas vezes. Mas felizmente ficaria vivo com uma lancinante história para contar.

Nos dois casos, teria uma milagrosa libertação. No Brasil, em 1969, por meio do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick – seria um dos 15 prisioneiros políticos que seriam trocados pelo diplomata – e no Uruguai, em 1978, através de uma benfazeja campanha política, feita pelos jornais nos quais trabalhava, Excelsior e Estadão, e também por amigos e advogados. Uma liberdade que nos doou um grande escritor. E que também faria com que perdesse o desejo de vingança com relação a seus algozes. Pois o nascimento do segundo filho, Camilo, no México, constituiria uma nova razão para viver, fazendo com que abandonasse o desejo de retaliação. Os sádicos carrascos, concluiria, não deixam também de ser vítimas do regime de terror. Aquele regime que implanta o medo no coração de todos, criando uma pátria de delatores e de monstros torturadores.

A peça termina com uma análise a respeito das causas da opção pela ação revolucionária. Flávio Tavares, através de Bruce, nos diz que a primeira reação que teve à ditadura de 64 foi uma reação moral. Moralmente, não poderia deixar de resistir. Havia também uma ingenuidade, admite, a de acreditar que seria capaz de criar um mundo melhor. Sua maior influência foi a de Che Guevara, que encontrou em carne e osso em agosto de 1961 na conferência da “Aliança para o Progresso” em Punta del Este (escreveu um livro sobre este encontro). Mas depois o que passou a movê-lo foi principalmente o amor, o amor pela humanidade e ao próximo. Amor que o mantém vivo e o faz lutar. Com palavras, apenas com palavras. O Verbo cristão.

Flávio, com sua capacidade de superação, é um herói brasileiro, não há a menor dúvida. Um milagre encarnado. E quem quiser conhecer um pouco sua história deve ir ao Teatro Poeirinha ouvir o monólogo de Bruce. Sem receio de sofrer várias mortes. A peça, que fica em cartaz até o dia 28 deste mês, é um ensinamento. Alarga a alma. Sem falar que reforça a justa percepção de que a última coisa que o Brasil precisa é de novos regimes totalitários, que façam com que as pessoas tenham pesadelos com pênis que se soltaram da pele devido a choques elétricos.

A obra de Flávio Tavares não se resume a “Memórias do Esquecimento”, obra-prima com a qual ganhou um Prêmio Jabuti. Ele continuou a escrever sempre livros essenciais. “O dia em que Getúlio matou Allende”, publicado em 2004, também ganhou o Jabuti e o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. “1961, o golpe derrotado”, saiu em 2013, e ganhou o Prêmio Livro do Ano, da Associação Gaúcha de Escritores; “Meus 13 dias com Che Guevara” também foi publicado em 2013; “1964, o golpe” foi editado em 2014, e “As três mortes de Che Guevara” em 2017.

Camilo Tavares, seu filho, dirigiu o imperdível documentário “O dia que durou 21 anos” sobre a participação dos EUA no golpe de 64.

* Jornalista e escritora