Documentário sobre Bill Murray será exibido na abertura do Festival de Londres

Idealizado em 1953 para garantir à capital da Inglaterra uma vitrine cinematográfica nos moldes de Cannes e Veneza, o BFI London Film Festival, traduzido no Brasil como Festival de Londres, é um dos mais prestigiados eventos da indústria audiovisual no Velho Mundo, famoso por sua diversidade (225 títulos de 77 países) e por um clima de descontração e de ironia com as convenções cinematográficas que justifica uma sessão de gala para um projeto tão doido quanto “The Bill Murray stories: life lessons learned from a mythical man”. Inaugurando sua programação na próxima quarta-feira, o BFI agendou para o próprio dia 10 uma projeção deste inusitado documentário de Tommy Avallone sobre o comediante celebrizado no papel do Dr. Peter Venkman, de “Os Caça-fantasmas” (1984). Há tentas lendas em Hollywood em torno do astro – indicado ao Oscar em 2004, por seu desempenho como um ator decadente em tour pelo Japão em “Encontros e desencontros” – que foi possível fazer um filme sobre o culto em torno dele (vendem-se velas com o rosto do ator) e sobre suas excentricidades.

Macaque in the trees
"Tem coisas que você faz porque o cachê é bom e tem coisas que você faz para se divertir", disse Murray ao Jornal do Brasil no último Festival de Berlim (Foto: Divulgação)

“Tem coisas que você faz porque o cachê é bom e tem coisas que você faz para se divertir. E há os filmes em que você vai buscar o que existe naquela trava silenciosa que a gente dá, feito um engasgo, sempre que está em dúvida acerca dos mistérios da vida. Eu atuo nessas três frentes. E o tempo de estrada me trouxe mais prazer e conforto na hora de distinguir a importância de cada uma delas. A consciência do que você faz na Arte, com a Arte, é o que dá ao trabalho um valor transcendente, que faz as coisas permanecerem na memória das pessoas”, disse Murray ao Jornal do Brasil no último Festival de Berlim, por onde passou como integrante do time de dubladores da animação “Ilha de cachorros”, de Wes Anderson.

Há uma brincadeira em solo hollywoodiano que diz: se você quiser ter Bill Murray no elenco de um filme, espalhe sua vontade entre os amigos dele, como um boato. Vai chegar até ele. Não há outra forma de atrai-lo, pois ele não tem agente. Ele mesmo negocia seus cachês, acerta sua participação nos longas-metragens. Tem sido assim desde que ele despontou para a fama no programa humorístico “Saturday night live”. Em meio ao sucesso, ele virou as costas para as artimanhas óbvias do estrelato, foi estudar Filosofia e produziu um drama baseado na obra do escritor W. Somerset Maugham: “O fio da navalha” (1984). Todas essas histórias integram o .doc que Avallone fez sobre ele. Um documentário de fã sobre um ícone do riso que faz questão de ser uma exceção a tudo.

“No cinema, eu tento ficar atento às vozes autorais, aos cineastas que têm um universo próprio, como Wes Anderson, cuja obra tem um colorido fabular. Investir na fábula neste momento em que a realidade do mundo anda tão dura parece uma subversão”, disse Murray, que foi escalado por Jim Jarmusch (“Paterson”) para integrar o elenco da comédia sobre zumbis “The dead don’t die”, ao lado de Adam Driver. “Dei sorte de fazer parcerias com grandes cineastas, como Jim, Wes, Harold Ramis, Ivan Reitman. Pude aprender como é representar o que existe de mais peculiar no mundo sob o olhar deles. E o mundo não precisa só de denúncias realistas. Ele também carece de fantasias”.

Como sua atração de abertura, o Festival de Londres escalou “As viúvas”, thriller de Steve McQueen (“12 anos de escravidão”), com Viola Davis e Liam Neeson. Há uma mostra competitiva no BFI, que faz dele um dos festivais de maior prestígio da Europa na atualidade. Concorrem este ano “Pájaros de verano”, de Cristiana Gallego e Ciro Guerra (Colômbia); “Destroyer”, de Karyn Kusama (EUA); “Lazzaro Felice”, de Alice Rohrwacher (Itália); “In fabric”, de Peter Strickland (Reino Unido); “Shadow”, de Zhang Yimou (China); “Joy”, de Sudabeh Mortezai (Austria); “Tarde para morir joven”, de Dominga Sotomayor (Chile); “Sunset”, de László Nemes (Hungria); “Happy new year, Colin Burstead”, de Ben Wheatley (Reino Unido); “The old man & the gun”, de David Lowery (EUA), que tem Robert Redford, em vias planos de aposentadoria, como seu protagonista. Nas projeções especiais estão “Peterloo”, do inglês Mike Leigh; “Mirai”, animação do japonês Mamoru Hosoda; e o .doc “Fahrenheit 11/9”, piquete de Michael Moore contra Donald Trump. Serão projetadas ainda iguarias como o faroeste “The ballad of Buster Scruggs”, dos irmãos Coen, e o terror “Suspiria”, de Luca Guadagnino.

Para o Brasil, o BFI reservou espaço para filmes como “Um corpo feminino”, de Thais Fernandes; “O clube dos canibais”, de Guto Parente; “Morto não fala”, de Dennison Ramalho; “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos”, de Renée Nada Messora e João Salaviza, uma coprodução com Portugal; “This is bate bola”, rodado por Neirin Jones e Ben Holman em favelas do Rio; e “Sueño Florianópolis”, de Ana Katz, produzido por argentinos e brasileiros, tendo Marco Ricca no elenco. Vencedor da Semana da Crítica de Cannes, “Diamantino”, que tem sangue brasileiro, em seu organismo português, vai tentar sua sorte na capital inglesa também.

Para encerrar suas atividades, o BFI exibe, no dia 21, o esperado “Stan & Ollie”, com John C. Reilly e Steve Coogan encarnando “O Gordo e o Magro”, sob a direção de Jon S. Baird, numa comédia dramática baseada nas memórias da dupla que levou gerações às gargalhadas entre o fim dos anos 1920 e 1951.

*Roteirista e crítico de cinema