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O thriller "U-July 22" revive em tempo real o horror do massacre na Ilha de Utoya, sob tiros da extrema-direita

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Alvo de controvérsias por onde passa, ao conjugar uma narrativa próxima a de um videogame de tiro com uma tragédia real, “U-July 22” pede passagem pelos principais eventos de cinema internacional do Brasil (estima-se sua presença na Mostra de SP e o Festival do Rio), trazendo para o país memórias de um episódio traumático para o povo norueguês.

Cerca de sete anos se passaram desde que a Noruega viveu um dos mais sangrentos episódios de sua história recente. Em 22 julho de 2011, a capital Oslo sofreu um atentado a explosivos na área onde se situa o gabinete do primeiro-ministro - oito pessoas morreram. No mesmo dia, a Ilha de Utoya, a 30 km de Oslo, foi palco de um tiroteio que terminou num massacre. Coligados, os dois atos são atribuídos a um grupo de extrema-direita antiglobalização.

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O thriller U-July 22 revive em tempo real o horror do massacre na Ilha de Utoya, sob tiros da extrema-direita (Foto: Divulgação)

Cicatrizes oriundas desse trágico incidente marcam a vida daquela nação, o que atraiu a atenção do cinema. Esta semana, o longa entra para a seleção BFI London Film Festival (10 a 21 de outubro), no Reino Unido.

Rodado num único take, de 72 minutos, como se fosse um jogo eletrônico de tiro, “U-July 22” tem dado ao diretor norueguês Erik Poppe prestígio internacional. Um dos concorrentes ao Urso de Ouro do Festival de Berlim 2018, de onde saiu com uma menção honrosa do Júri Ecumênico, a produção foi recebida com uma salva calorosa de aplausos por seu virtuosismo técnico. “As mazelas humanas não geram espetáculos, mas perplexidade e repúdio”, disse Poppe ao JB em Berlim.

Com experiência em fotografia de guerra, o diretor fez esta reconstituição em forma de um filme de horror. Ele recria em tempo real o ataque a uma zona de camping para jovens estudantes. O cineasta aposta em uma abordagem de perspectiva física, como se levasse o espectador para viver o que lá se passou, tendo uma das vítimas, Kaja (Andrea Berntzen), como foco. A narrativa segue a correria da moça para escapar das balas de um atirador de elite.

“Uma das questões mais desafiadoras do cinema é dominar o tempo e reproduzir fisicamente as sensações que um espaço demarcado de horas pode transmitir. O importante era mostrar o que se passou naquela ilha e, a partir do incidente, discutir o avanço do fascismo na Europa. Era o meu caminho para criticar a intolerância que alimenta o terror”, disse Poppe ao JORNAL DO BRASIL, sendo ovacionado várias vezes durante a coletiva de imprensa do longa na Berlinale, por suas reflexões humanistas. “Não quis fazer um memorial da tragédia. Quis fazer um movimento que canalizasse nossa inquietação frente ao que houve. Não quero que uma tragédia assim se repita”.

Frenético do começo ao fim, sobretudo por sua engenharia de som sofisticada, “U-July 22” foi construído a partir de depoimentos dos sobreviventes de Utoya. Poppe colheu fatos e sensações de quem viveu horas de pânico. “Muita gente me perguntou por que não fiz um documentário sobre os fatos. A opção pela ficção é que ela pode explorar camadas, sobretudo acerca das inquietações da juventude, que não estão visíveis nas camadas do real”, disse Poppe. “Espero que o contato com este filme faça parte do processo de cura das vítimas”.

Paul Greengrass, o realizador da franquia Jason Bourne também fez um longa sobre Utoya, que se chama “22 de Julho”, mas é um projeto para a Netflix, previsto para estrear no dia 10 de outubro. Mas seu enfoque é menos virtuoso, centrado no julgamento do caso.

*Roteirista e crítico de cinema



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