Jornal do Brasil

Cultura

Fim de semana de estreias teatrais

Dos novos espetáculos que chegam aos palcos da cidade, tem de biografia de sambista a encontro fictício, passando pelos dramas político e humano

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO, AFFONSO NUNES

Bamba Vamba Wamba: O inimigo mora dentro de casa

Macaque in the trees
A companhia portuguesa Este-Estação Teatral resgata a saga de um rei ibérico que remete à crise política no Brasil (Foto: Divulgação)

Inspirada nos conceitos de improviso e interação da comedia dell’arte, a companhia portuguesa Este-Estação Teatral volta ao Brasil para apresentar no Teatro João Caetano, de hoje a domingo, o espetáculo “Bamba Vamba Wamba”. Bamba (ou Wamba) foi um rei visigodo que governou o reino de Toledo durante o período da invasão moura na Península Ibérica. Seu reinado durou oito anos, de 772 a 680, e sucumbiu diante da conspiração articulada por Ervichio até então o segundo homem mais poderoso do reino.

“A princípio, a saga de um rei visigodo não diz muita coisa ao público brasileiro, mas a questão da traição é atemporal”, sustenta o diretor da peça e da companhia, Nuno Pino Custódio, numa referência direta ao turbulento momento político brasileiro que culminou no impeachment da presidente Dilma Roussef, em 2016.

Em cena, apenas três atores e um espaço vazio. O trio resgata a memória do protagonista trazendo ao público reflexões sobre ele, sua região, cultura e as associações com a realidade brasileira. A narrativa é provocante e nos leva a refletir sobre até que ponto a memória é construída exclusivamente de fatos, mas também de crenças, lembranças ou verossimilhanças que precedem o fato em si? “O poder e sistemática luta que se trava por ele é algo universal e atemporal e que, mais do que se imagina, aquele que nos trai, está supostamente do nosso lado, é o nosso ajudante mais próximo. O inimigo está dentro da nossa casa”, afirma.

Aqui jaz Henry: Uma dramaturgia dissonante

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Renato Wiemer interpreta texto de canadense (Foto: Divulgação)

“Aqui jaz Henry”, com texto do autor canadense Daniel MacIvor, está em cartaz no Teatro Eva Herz, no Centro. O monólogo, que tem direção artística de Clarissa Freire e interpretação de Renato Wiemer - que idealizou o espetáculo e traduziu o texto -, apresenta Henry, um homem que fala sobre a impermanência do ser humano, as dores e os amores nas relações, a homossexualidade e a morte. Nem ele mesmo sabe o que é verdade - e nem teria como saber - porque mente a respeito de tudo, até sobre a própria mentira. “MacIvor tem uma maneira particular de escrita, uma dramaturgia não linear, dissonante, mas que no final faz todo o sentido. Henry fala e se relaciona o tempo todo com a plateia. É um espetáculo que transporta o espectador para dentro da sua narrativa”, diz Renato.

Kid Morengueira - Olha o breque!: O bom humor de Morengueira

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Êdio Nunes como o sambista Mareira da Silva (Foto: Divulgação)

“Kid Morengueira – Olha o breque!” estreia hoje no Teatro Cesgranrio, no Rio Comprido. O monólogo musical, idealizado e protagonizado por Édio Nunes, homenageia Moreira da Silva (1902 – 2000) e faz rápida temporada - apenas seis apresentações. Édio levou o personagem à cena pela primeira vez em 2004, onde deu voz ao sambista no musical “Geraldo Pereira – Um escurinho brasileiro”. Ele se destacava no número musical “Na subida do morro” e os colegas comentavam que ele deveria fazer um musical sobre o Moreira. “No musical ‘Crioula’ que estreou no CCBB em 2000, eu fazia o Moreira da Silva e outros. O antológico encontro dele com Elza, uma das cena do espetáculo, também vai ser lembrado no nosso ‘Kid Morengueira – Olha o breque!’, mas agora com o olhar bem humorado do Moreira”, diz o ator.

O espetáculo tem texto de Ana Velloso e Andreia Fernandes, que misturam fatos biográficos a elementos de ficção, e direção de Sergio Módena. Em cena, Édio é acompanhado dos músicos Fernando Leitzke (teclado) Ricardo Rente (sopro) e Sérgio Conforti (bateria e percussão).

A busca: Feminino como potência arquetípica

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A peça trabalha com a linguagem da máscara teatral (Foto: Divulgação)

Comemorando 30 anos de trabalho, o Grupo Moitará, referência na linguagem da máscara teatral, encena “A busca” no Teatro Serrador, no Centro. Nem comédia, nem drama,o espetáculo que tem direção de Venício Fonseca, está ligado à cena-poema, gênero pautado em efeitos sensoriais para construção da narrativa. Efeitos estes que, somados ao trabalho da atriz Erika Rettl, servem de fio condutor para contar a história. “‘A Busca’ fala da necessidade de resgatar a matriz feminina como potência arquetípica presente em todos os seres. Vai ao encontro de uma consciência que está interligada a grande rede que nutre a vida”, diz a atriz, que usa uma máscara inspirada nas Parcas ou Moiras, divindades da mitologia greco-romana que controlam o destino dos mortais e determinam o curso da vida humana.

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CONFIRA mais uma estreia teatral:

"Para onde vão os corações partidos", por Mariana Camargo

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