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Cultura

Minha filha estreia no Brasil e levanta a bandeira da novíssima geração de cineastas da Itália

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Na véspera do Dia das Crianças, em 11 de outubro, um melodrama à italiana, daqueles de ensopar os olhos de lágrimas, vai tentar a sorte no circuito brasileiro, endossado por quilômetros de elogios publicados pela imprensa europeia em sua passagem pelo Festival de Berlim: “Minha filha”. Sabe a passagem bíblica na qual o sábio Salomão precisa decidir quem é a real mãe de um bebê disputado por duas mulheres? É disso que trata o longa-metragem de Laura Bispuri, uma jovem realizadora que passou a ser encarada como uma das maiores promessas autorais da Europa.

O sucesso dela é parte de uma (re)oxigenação do cinema da Itália. Depois de anos tachado de decadente, entre as décadas de 1990 e 2000 (por conta do sucateamento de seus modelos de produção e de seu sistema de distribuição equivocado), aquela cinematografia voltou a alçar voos criativos com o sucesso de diretores como Paolo Sorrentino (de “Il Divo” e “A grande beleza”), hoje na casa dos 40, 50 anos. Mas há uma turma mais moça: Laura é um dos destaques de uma novíssima geração de cineastas egressos da pátria de Lina Wertmüller, Antonioni e Pasolini.

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Em "Minha filha", duas mulheres de temperamentos distintos disputam a maternidade de uma menina (Foto: Divulgação)

Tanto que, na última quinta-feira, foi anunciado que “Figlia mia” (título original do filme dela) vai integrar o painel “Novas produções italianas” no 62º BFI London Film Festival (10 a 21 de outubro), demarcando entre as telas do Reino Unido a força de uma das mais potentes realizadoras do Velho Mundo na atualidade. Ao lado de Bispuri, estarão longas inéditos dirigidos por Laura Lucetti (“Fiore gemello”), Edoardo De Angelis (“Il vizio della speranza”), Diego Marcon (com a animação “Monelle”) e outros talentos em ascensão.

“A Itália tem um universo muito plural de locações, que se difere pelos dialetos, mas que se aproxima pela música e pela tradição do cinema. Eu escolhi a Sardenha para poder filmá-la com as cores quentes do melodrama. Cores que o cinema da tradição neorrealista não tinha”, disse Laura Bispuri ao JORNAL DO BRASIL, em Berlim. “Explorar uma paisagem humana contrastando atrizes profissionais com habitantes locais é sempre um exercício à margem do risco”.

Comovente, “Minha filha” trouxe a sequência mais catártica de todo o Festival de Berlim deste ano: a brilhante atriz Alba Rohrwacher e a pequena Sara Casu, de 11 anos, depositam toda a energia que têm a cantar “Questo amore non si tocca”, hit da canzione italiana, gravado por Gianni Bella. As duas cantam como se brincassem de karaokê, diluindo as fronteiras de idade e hierarquia familiar que as separam. Alba é a alcoólatra Angélica, uma mulher afeita ao prazer. Sara é Vittoria, uma menina de 9 anos que tem duas mães: Angélica de um lado; e a pudica e possessiva Tina (vivida por Valeria Golino, de “Rain man”) do outro. As duas adultas disputam, cada uma à sua maneira, o coração da menina.

“Esta é a história de um renascimento, a partir da evocação da moral salomônica: na disputa pelo coração de Sara, as duas se reinventam e nos conduzem a essa reinvenção, enquanto implodem na tela”, diz Laura, antes conhecida por “Vergine giurata” (2015), também com Alba Rohrwacher, uma das atrizes mais populares da Itália hoje, adorada pelos diretores autorais de lá. “Temos já uma parceria sedimentada, que nos ajuda na investigação dos sentimentos”.

Irmã de Alba, a cineasta Alice Rohrwacher é outro pilar de reciclagem para a estética italiana na ficção, com seus dois pés bem fincados na tradição do neorrealismo de Rossellini e De Sica – movimento que modificou a maneira de se filmar, a partir do lançamento de “Roma, cidade aberta”, em 1945, questionando o ideal moralista de “final feliz” e incorporando temas reais urgentes aos enredos. Laureada com o Grande Prêmio do Júri de Cannes de 2014 por “As maravilhas”, no qual falava sobre o povo etrusco, Alice voltou a ser contemplada com mimo da Croisette este ano, em que concorreu com “Lazzaro Felice”. Conquistou o prêmio de melhor roteiro por este longa, que fala de uma paupérrima aldeia de planteio de fumo, tendo um camponês de bondade franciscana como seu protagonista. A produção já correu mostras competitivas nos EUA, na Espanha e em Israel e também estará no bonde italiano do BFI London Film Festival, porém entrará lá entre os concorrentes ao prêmio de Melhor Filme da competição britânica.

“A Itália é um país mitológico no cinema. Isso nos gerou um patrimônio rico, mas também um impasse: cada novo filme que fazemos parece ter pela frente o desafio de fazer jus à nossa identidade histórica nas telas”, diz Alice.

Nem só de fábulas

Estrela maior da geração que antecedeu Laura e Alice, Paolo Sorrentino saiu de uma série da HBO (“O jovem papa”, com Jude Law) diretamente para um exercício de ironia política: “Loro”, um filme em duas partes sobre as estripulias morais do ex-primeiro ministro e magnata Silvio Berlusconi. Toni Servillo vive Berlusconi no longa. Igualmente pop, o diretor Luca Guadagnino, responsável pelo oscarizado “Me chame pelo seu nome” (2017), promete lucrar milhares de dólares (quiçá milhões) com a nova versão do terror “Suspiria”, inspirado num cult de 1977, de Dario Argento.

Nem só de fábulas vive a grandeza audiovisual da terra natal de Luchino Viconti. Na seara documental, a Itália angariou fama recente com a bem-sucedida carreira do diretor Gianfranco Rosi, ganhador do Leão de Ouro de 2013 com “Sacro GRA” e do Urso de Ouro de 2016, com “Fogo no mar”. Nascido na Eritreia, de origem romana, Rosi finaliza “Notturno”, em que documenta a vida noturna do Oriente Médio. Mas há outros nomes italianos na seara do Real com novíssimos filmes. Roberto Minervini é um deles: o cineasta surpreendeu o Festival de Veneza com “What you gonna do when the world’s on fire?”, um retrato da luta de jovens negros americanos para driblar a pobreza e a intolerância racial. Também de Veneza veio o eletrizante .doc “Camorra”, de Francesco Patierno. Pautado numa estrutura investigativa toda calcada em imagens de arquivo, o longa viaja pela História, de 1960 a 1990, com foco em Nápoles e a construção da célula mafiosa local, em resposta à pobreza e ao êxodo rural. Numa sequência de deixar plateias boquiabertas, o filme resgata uma entrevista de um menino de 5 anos que passa os dias a vender cigarros para garantir o sustento de seus parentes, num ambiente de violência explícita.

O ano de 2018 vem sendo um tempo de glória para a Itália nas telas, coroado com a vitória do ator Marcello Fonte em Cannes por seu desempenho no western contemporâneo “Dogman”, novo de Matteo Garrone, ainda inédito em circuito. Na trama, um dono de pet shop vai acertar as contas com seu mais bruto amigo de juventude. O saldo: um espetáculo narrativo que faz jus ao legado de Fellini, Ettore Scola & cia., ainda eternos em nossa memória de um cinema ainda em movimento.

P.S.: Há um belíssimo filme italiano em cartaz no Brasil. Ele se chama “Uma questão pessoal” e foi dirigido pelos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, uma grife autoral (de cepa nietzschiana) das mais virulentas, responsável por marcos como “A noite de São Lourenço” (1982). É uma visita à região de Piemonte em plena II Guerra. Vale o ingresso.

* Roteirista e crítico de cinema

 



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