Jornal do Brasil

Cultura

Mimo contagia Paraty

Apesar da chuva, público participou com entusiasmo das atividades do festival

Jornal do Brasil JORGE MARTINS*, Especial para o JB

PARATY (RJ) - Em seu 15º ano de realização, o Mimo passou seguro em meio à agitação política de véspera de eleição, e embora reduzida, a programação do festival não deixou a desejar em relação às edições anteriores. Destaque para a cantora Virginia Rodrigues, que fez um show impecável na noite de sábado, na Igreja da Matriz, no Centro Histórico da bela cidade da Costa Verde do Estado do Rio.

Comemorando 20 anos de carreira, a artista mostra um belo trabalho de preservação e pesquisa da cultura afro-brasileira. No show, Virgínia – que recebeu o troféu de melhor cantora no Prêmio da Música Brasileira, em 2016 - apresentou as músicas de seu álbum mais recente, “Mama Kalunga” (2015).

Macaque in the trees
Momento de rara emoção no segundo dia do festival: a cantora baiana Virgínia Rodrigues e suas músicas de inspiração africana ecoaram na Igreja da Matriz (Foto: Mapa Fotografia/Rogério von Krüger)

A matriz foi tomada por cantos típicos da música negra da Bahia, como “Noite de temporal”, “Oju Obá”, “Mama Kalunga” e “Vá cuidar de sua vida”, que montaram um cenário no mínimo curioso ao serem apresentados numa igreja. O público do Mimo participou bastante do show da artista, que foi acompanhada por músicos de primeira: Bernardo Bosisio e Leonardo Mendes nos violões, Marco Lobo na percussão e Iura Ranevsky no violoncelo.

Apesar da chuva da sexta-feira, o grupo colombiano Systema Solar agitou com a música caribenha dançante e as roupas coloridas. O estilo musical é chamado de “Berbenautika”, que tem como inspiração o universo dos Picós (sounds systems) e das Verbenas (festas de rua), todos muito populares na Colômbia.

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A Chuva de Poesia de novo inundou as ruas de Paraty com textos da escritora Hilda Hilst: cultura que cai do céu (Foto: Mapa Fotografia/Rogério von Krüger)

A noite continuou com um destaque da cena musical brasileira, o Cordel do Fogo Encantado que apresentou o novo disco novo, “Viagem ao coração do sol”. A trajetória de sucesso começou em 1997, em Arcoverde, sertão de Pernambuco. As pessoas não se intimidaram com o mau tempo e continuaram dançando e cantando. A boa notícia dada pelo grupo foi a de que três álbuns da banda foram disponibilizados em todas as plataformas de streaming: “Cordel do Fogo Encantado” (2001), “O palhaço do circo sem futuro” (2002) e “Transfiguração” (2006).

Outra atração que chamou muito a atenção foi o Songhoy Blues, que tem como proposta recriar o ambiente musical do Norte da África, a fim de que os refugiados relembrem a terra natal, o Mali. O nome da banda está relacionado à etnia dos integrantes (songhoy é o nome dado ao grupo étnico da África Ocidental) e ao tipo de música que tocam e que contagiou a plateia de Paraty.

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O ativismo político da Songhoy mexeu com a plateia (Foto: Mapa Fotografia/Rogério von Krüger)

A procura pelos filmes com temática musical, selecionados para exibição na Costa Verde pela comissão do Festival Mimo de Cinema - também recebeu um numeroso público, principalmente porque a cidade inaugurou recentemente o “Cinema na Praça”, um espaço que oferece conforto e qualidade aos fás de cinema. Havia grande expectativa pelo filme “Inaudito”, longa que conta a história do guitarrista Lanny Gordin, que eletrizou o som da Tropicália. “Ele está mais preocupado com o som que faz hoje e procurei mostrar isso”, explicou o diretor Gregório Gananian, que estava com a mulher, a produtora Daniela Omm.

Na única parte do longa em que Lanny se refere à Tropicália, define o movimento como “Um elefante lindo que comeu hortelã, dormiu e acordou num zoológico. Para, em seguida, se transformar numa pantera e devorar tudo em volta”. O filme foi lançado na Mostra internacional de cinema de São Paulo (2017) e passou em Tiradentes. Mais uma vez, a Chuva de Poesia, que se realiza na entrada da Igreja da Matriz, agradou. Poemas de Hilda Hilst foram jogados sobre um público ansioso, que disputou o presente entre risos e admiração. Muitas se sentaram e começaram a ler o que conseguiram apanhar. *Jornalista



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