Jornal do Brasil

Cultura

Quando é preciso combater a violência com a não-violência

Documentário "America armada" retrata desigualdade e opressão no continente

Jornal do Brasil TONY TRAMELL*, especial para o JB

BRASÍLIA - Alice Lanari e Pedro Asbeg retratam a violência e desigualdade social em “America armada”, o longa teve sua estreia hours concours na última edição do Festival de Brasília e se prepara para sua estreia internacional no próximo dia 11, no Festival Internacional de Cine Documental de la Ciudad de México, na Mostra Competitiva. A produção Festival Internacional de Cine Documental de la Ciudad de México.

“America armada” acompanha três personagens, em países diferentes, vivendo em meio à desigualdade social e à opressão da violência. Resistindo da maneira mais difícil: lutando sem armas. Para sobreviver, usam a informação, a conscientização e o afeto. “Foi um encontro totalmente casual e, a partir daí, a ideia nasceu das nossas conversas. Surgiu de falar das semelhanças e das coisas que unem Brasil e México, países tão distantes, de alguma maneira, que a gente troca pouco. A Alice morando lá, confirmou aquilo que eu imaginava, que somos países com muito em comum. Infelizmente, o que encontramos em comum foi a violência e grupos que estavam juntando para defender seus territórios”, contou Pedro. “Eu morava no México e o Pedro morava no Rio, a gente se encontrou lá e o filme nasceu daí, dessa vontade”, acrescentou Alice.

“Acabamos indo por outro caminho, inclusive com a chegada da Colômbia, que não foi num primeiro momento. Veio com a pesquisa, a gente entendeu que não dava pra falar de Brasil e México, de falar de violência armada, sem falar de um processo que começou de certa forma por lá...”, esclareceu Alice.

“A origem é Estados Unidos com as armas”, cortou Pedro. “Que é quem ganha, quem lucra, mas sem dúvida, a Colômbia é um país simbólico quando a gente trata de violência armada na América Latina, nos últimos 50 anos (Nesse tempo, 20% da população foi exterminada por causa desses confrontos). Justamente por isso, achamos importante trazer um terceiro país”.

“Não esperava que o filme fosse nascer dentro de um momento tão importante para essa discussão. Somos rigorosamente contra alguma proposta de discussão do Estatuto do Desarmamento. Pra gente, está muito claro que não é a arma que vai resolver e o filme deixa isso muito claro. Arma gera mais violência, mais morte. Mas tenho esperança. A gente fez o filme muito antes disso acontecer (campanha política), mas aí, de repente, o inesperado vem e as coisas se cruzam. O filme é absolutamente contra o uso da arma. A Colômbia entra no filme para mostrar um caminho pelo qual a gente não quer ir”, falou o cineasta.

Macaque in the trees
A diretora Alice Lanari vê no inesperado o elemento mais sublime de seu documentário (Foto: Divulgação)

A produção optou por um estilo sem sessões de entrevista ou “talking heads”, com suas narrativas. A aposta foi no acompanhamento e acaso. “Acreditamos que ninguém melhor do que as próprias pessoas vivendo suas vidas, sua realidade, para impactar e trazer para o espectador essa força, esse impacto”, explicou Alice. “A gente partiu da ideia de que precisava fazer uma pesquisa. Irríamos falar de países e estruturas sociais que não eram nossas, entrar em lugares que não eram fáceis de entrar” contiua.

Cada país escolhido vive um determinado estágio da violência. Para os diretores, a Colômbia teria ultrapassado o momento mais crítico. “Exemplo disso é a Teresita”, diz Pedro. “O grupo dela tenta que as pessoas se perdoem, que exista paz na Colômbia”. A expectativa é que o ciclo de vingança e morte diminua. O México tem a situação mais extrema dos três e acompanha o cotidiano de Heriberto Paredes, jornalista independente comprometido em documentar e divulgar o processo de formação dos grupos de autodefesa. Determinadas regiões do país criaram grupos de civis armados para se defender do narcotráfico e do estado, considerado criminoso. No Brasil, é Raull Santiago, do coletivo Papo Reto, ativista do Complexo do Alemão (no Rio de Janeiro), que mostra as atuações da milícia e do estado.

Alice explica que é preciso estar muito atento para não deixar escapar detalhes. “A gente estava muito preparado, mas no documentário você tem que saber como lidar ao se deparar com o inesperado. Nos preparamos dois anos para filmar, mapeando a vida deles para saber o que a gente queria e isso quebra já no primeiro dia, quando a gente tava na van a caminho do Complexo do Alemão, quando o personagem liga e precisamos mudar o desenho por causa de uma situação que surgiu”, lembra a cineasta. “É justamente o inesperado a coisa mais sublime do documentário. Só que, quando você não sabe nem o que esperar, muitas vezes esse inesperado te cruza e você nem percebe”, diz.

“A ideia da banalização da violência. Que uma pessoa por viver nessas áreas, que são áreas de conflito, de uso de armas e essas pessoas vão se acostumando com tiroteio, com armas. Incialmente era contextual e falávamos isso sobre os outros, mas depois de um tempo percebemos que essa anestesia também vinha acontecendo com a gente durante o processo de filmagem”. Alice.

*Assistente de direção e jornalista

 



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