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Ética de porcas, estética de parafusos: confira crítica de 'A fábrica de nada'

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Ativista da causa da perplexidade, ciente de nossa orfandade em relação à falência dos metadiscursos políticos, que outrora explicavam e confortavam o mundo (o marxismo, o anarquismo, e até o socialismo cristão), “A fábrica de nada” costura números musicais com trechos documentais e situações cômicas quase caricatas com dramas realistas. Essa mistura feita pelo diretor lisboeta Pedro Pinho é das mais radicais – e, ao mesmo tempo, das mais harmônicas – que o cinema contemporâneo já viu. Daí a conquista do Prêmio da Crítica de Cannes, em 2017. Tudo neste filmaço português é registrado numa fotografia esmaecida, na qual a câmera de Vasco Viana rejeita excessos de cor e luz. Tudo está esgotado, como o mundo.

Macaque in the trees
Em "A fábrica de nada", operários se veem obrigados a permanecer em seus postos mesmo sem trabalhar (Foto: Divulgação)

Existe um mote: a demolição da lógica fabril herdada dos 1800 e, até hoje, vigente, como um zumbi da história. Um grupo de operários se encrespa com a administração de uma indústria de elevadores, ao ver que a gerência está roubando máquinas e matérias-primas, e faz um levante que tem um ônus - todos permanecem em seus postos, no ócio, até as negociações para demissão coletiva saírem. Existe uma vivência: explicitado esse enredo, as tensões geram invenções, desde coreografias dos trabalhadores até digressões de teóricos. E, a um dado momento, brota uma frase romântica – “O filho da p... do amor, se for mesmo amor, é incondicional” – provando estarmos diante de um olhar terno sobre pessoas, e não de uma tese sociológica. E a montagem galvaniza a poética de alarmismo de Pinho.

*Roteirista e crítico de cinema

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A FÁBRICA DE NADA: **** (Muito Bom)

Cotações: o Péssimo; * Ruim; ** Regular; *** Bom; **** Muito Bom



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