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Cultura

Nas trincheiras da lucidez crítica: confira crítica de 'Uma questão pessoal'

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Singelo em sua forma de encarar a memória como um depósito de esperanças, “Una questione privata” (título original desta joia do intimismo italiano) carrega, em seu olhar sobre valores morais, as lentes críticas dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, uma grife autoral (de cepa quase nietzschiana) das mais virulentas, responsável por marcos como “A noite de São Lourenço” (1982). Por isso, essa história sobre lealdade parece desterritorializada, em nosso circuito, diante da estética de causa e efeito do cinemão ou da retórica do cinema-piquete dos Espaços e Estações da vida.

Macaque in the trees
O guerrilheiro Milton, vivido por Luca Marinelli, encara monstros morais da II Guerra no filme dos Taviani (Foto: Divulgação)

Construído a partir de um diálogo pouco reverente à literatura de Beppe Fenoglio (1922-1963), autor de “Il partigiano Johnny”, este conto sobre escolhas éticas nos fronts da II Guerra, em Piemonte, 1943, espatifa convenções das love stories. Sua dramaturgia aposta em um campo mais filosófico, em que a lucidez tenta fazer a paixão tropeçar, ao narrar as lutas (uma nas trincheiras fascistas, outra, na arena dos afetos) travadas pelo guerrilheiro Milton, jovem membro da Resistência Italiana. Vivido por Luca Marinelli, em finíssima atuação, o herói se divide entre sua missão ideológica e sua dívida com o Querer: encontrar sua amada Fulvia (Valentina Bellè), que também teve um caso com um amigo dele. Não há encanto nem fantasia no lirismo farpado dos Taviani: Paolo tem 86; Vittorio morreu em abril, aos 88.

Donos de uma Palma de Ouro, conquistada em 1977 pelo monumental “Pai patrão”, a dupla de diretores, egressos da Toscana, começou a filmar em 1954, lançando o curta “San Miniato, luglio ‘44” quando o neorrealismo de Roberto Rossellini e Vittorio De Sica já era respeitado Europa afora, visto como movimento de renovação poética do cinema. Embora fizessem do Real um objeto de decantação moral em seus filmes, eles pegaram uma estrada autônoma, mais áspera e menos romântica que a dos neorrealistas de carteirinha, sem laços conscientes com o tom onírico de Fellini, a incomunicabilidade de Antonioni, a busca pelo Belo feita por Luchino Visconti ou a desmistificação do profano de Pasolini. O cinema deles é sobre raspas e restos, sobre a dignidade que sobra, como se viu no inesquecível “César deve morrer” (2012) e agora na saga de Milton, esplendidamente fotografada por Simone Zampagni.

*Roteirista e crítico de cinema

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UMA QUESTÃO PESSOAL: **** (Muito Bom)

Cotações: o Péssimo; * Ruim; ** Regular; *** Bom; **** Muito Bom

 



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