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Vertentes políticas

Retratos da política nacional dão o tom no Festival de Brasília

Jornal do Brasil TONY TRAMELL*, especial para o JB

Um tema comum entre as diversas produções selecionadas para a 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é a política. O retrato consegue ser plural através de filmes diferentes entre si. “Torres das donzelas”, aborda o cárcere de mulheres no auge da ditadura militar – incluindo a ex-presidente Dilma Roussef; “Domingo”, foca no momento do começo da Era Lula; “Excelentíssimos” era para ser um filme sobre o Congresso, mas que, no meio do caminho, encontrou o impeachment e passou a retratar parte das engrenagens políticas do momento – observando a estratégia de Temer e aliados como Eduardo Cunha ou Aécio Neves; “New Life S/A”, produção da capital, adotou um tom cômico para a sua narrativa sobre a farsa do progresso, mas, em sua parte final, dá destaques a temas que são associadas à pauta da extrema-direita, como o uso de armas, e o longa “Bloqueio”, que mostra a recente greve dos caminhoneiros e o mosaico de opiniões que fizeram parte desse movimento.

Macaque in the trees
"Bloqueio" mostra a recente greve dos caminhoneiros (Foto: Divulgação)

“Bloqueio”, de Victória Alvares e Quentin Delaroche, é oriundo da percepção da dupla que aquele poderia ser um momento histórico. Enquanto assistiam aos noticiários, resolveram cair na estrada e registrar. No meio de tudo, “Tinha gente pedindo pela volta da ditadura militar e outros favoráveis aos discursos de golpe, a respeito do impeachment de Dilma Rousseff. Todos convivendo e lutando junto por melhores condições de trabalho”, conta Victória.

“Excelentíssimos” é o retrato mais fiel da polarização política entre os partidos brasileiros. Um processo, que se iniciou no fim das eleições de 2014 e durou até a queda da presidente Dilma Roussef, no dia 31 de agosto de 2016. “Se antes registraríamos o cotidiano de gente poderosa, peculiar e pouco conhecida, agora cabia registrar esses personagens em ação durante a maior crise política desde o fim da ditadura. Decidi, então, deixar os dois lados falarem. O filme não é neutro”, revela o diretor Douglas Duarte.

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Polarização política é o tema de "Excelentíssimos" (Foto: Divulgação)

O filme do jornalista Douglas Duarte pode ser visto como um prólogo de “O processo”, de Maria Augusta Ramos, que acompanha a trajetória no Senado. “Excelentíssimos” retrata um circo de horrores, com personagens que flertam com o bizarro. Em seus primeiros minutos, o diretor foca em construir um painel didático e explicativo do que está por vir.

A experiência como documentarista consagrado, ele é o responsável por “Personal Che (2007)” - que lida com o mito do guerrilheiro argentino - o levou até esse novo caminho. Sua produção tem imagens como um culto evangélico realizado na Câmara, com presença majoritária de políticos ligados a perfis reacionários.

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"New Life S/A" dá um tom cômico à farsa do progresso, abordando a defesa do uso de armas pela extrema-direita (Foto: Divulgação)

Douglas também não consegue ser indiferente às figuras de políticos em crescimento na vida brasileira, que fazem discursos contra o “vitimismo”. Entretanto, diante do que é visto, seu enfoque é mais do que pertinente. “Foi um desafio, o cinema tem recursos que nenhuma outra linguagem tem. O poder do cinema está na capacidade de transportar as pessoas para determinado lugar e fazer com que o habitem um pouco”, diz o diretor.

*Assistente de direção e jornalista

 



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