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Já disponível em canais on demand no Brasil, Distúrbio, thriller rodado em iPhone, traz a assinatura de Steven Soderbergh

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Produtor de um dos maiores fenômenos de bilheteria de 2018, o thriller “Oito mulheres e um segredo”, o cineasta americano Steven Soderbergh está sempre com a agenda cheia, dividido entre séries para a TV - como “Mosaic”, com Sharon Stone, que fez para a HBO - e projetos de longa-metragem - como o drama esportivo “High flying bird”, com Zachary Quinto, que lançará em 2019. Mas entre uma criação cinematográfica de maior apelo comercial e uma incursão na linguagem televisiva, o premiado realizador de “Sexo, mentiras e videotape” (1989) arranja tempo para dirigir experiências narrativas como “Distúrbio”, thriller todo rodado em iPhone. Lançada no Festival de Berlim, esta tensa produção de US$ 1,5 milhão, cujo título original é “Unsane”, já está disponível no Brasil em plataformas streaming de vídeo on demand (VOD) como o Telecine.On. Mesmo na telinha, causa desespero ver Claire Foy sofrer a alucinação de ser perseguida por um homem onde quer que vá. Há quem acredite que ela pode não estar alucinando e sim sendo, de fato, perseguida.

Macaque in the trees
Como costuma acontecer em sua filmografia, Soderbergh recorre a enquadramentos inusitados (Foto: Divulgação)

“Os filmes de gênero hoje andam bem parecidos com os filmes pornô: o terror, a sci-fi e o cinema de ação perderam a dimensão criativa da sugestão, perderam a habilidade de insinuar e pisaram fundo na brutalidade gráfica, explicitando coisas que deveriam estar só na imaginação do público. Eu decidi enfrentar o horror aqui para apresentar uma narrativa preocupada em valorizar a inteligência das plateias”, contou o diretor ao Jornal do Brasil, ciente de que seus maiores sucessos, como “Traffic” (2000) e “Magic Mike” (2012), misturavam elementos de diferentes filões do cinema. “Considero o filme-catástrofe ‘Contágio’, que fiz em 2011, o meu primeiro trabalho com terror, embora ele não siga as convenções comuns ao gênero. Já ‘Distúrbio’, que flerta com o suspense e investe na representação da loucura, vai mais pra uma linha de thriller psicológico”.

Nas bilheterias, “Distúrbios” faturou cerca de US$ 14 milhões, pouco perto das cifras milionárias que Soderbergh arrecadou com a franquia “Onze homens e um segredo” (2001-2007), mas bastante diante de seu custo mirrado e de sua engenharia de filmagem intimista. Nos sets, Soderbergh usa e abusa de enquadramentos inusitados (supercloses ou imagens desfocadas, por exemplo) feitos pelo próprio diretor, que fotografa seus próprios longas sob o pseudônimo de Peter Andrews.

Macaque in the trees
O diretor fotografa os próprios filmes sob pseudôni (Foto: Divulgação)

“Esse é um profissional de confiança. Peter Andrews é um fotógrafo é barato, rápido e não discute comigo. Planejo fazer mais um filme com ele pelo menos”, brincou Soderbergh em Berlim, em resposta ao JB. “A dificuldade do Peter Andrews, ou seja, minha, aqui, foi me adaptar às adequações da câmera do iPhone, adaptando a ela conceitos que usava em película ou câmeras digitais comuns. A verdade é que há cada seis semanas surge uma câmera nova que modifica toda a tecnologia anterior”.

Na trama de “Distúrbio”, a jovem Swayer (papel de Claire Foy) acaba sendo internada num sanatório ao procurar uma ajuda bem básica para seu problema: ela anda tendo ilusões persecutórias com um ex-namorado possessivo. A moça vê o sujeito em todo o lugar. Seu problema não chega a ser caso de detenção em manicômio, mas, ao aceitar participar de um experimento proposto por uma clínica, Swayer acaba presa, sujeita a toda sorte de loucuras e assombros.

“Queria investigar o efeito cruel que é arrancar a identidade de alguém, alienando uma pessoa de suas próprias certezas”, disse Soderbergh, que ressuscitou a sumida Amy Irving (de “Carrie, a Estranha” e “Bossa Nova’) no papel da mãe de Sawyer. “Taí uma atriz que reluta muito antes de aceitar um projeto, sendo muito seletiva. Amy traz pro set uma energia curiosa de que está sempre começando, apesar de toda a experiência que tem. Isso alimentava todos nós neste filme que eu considero um experimento”.

Ainda este ano, Soderbergh filma “The laundromat”, reunindo Gary Oldman, Antonio Banderas e Meryl Streep em uma trama sobre um grupo de jornalistas que investiga um escândalo de desvio de dinheiro.

*Roteirista e crítico de cinema



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