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Cultura

Opressão e desaparecimento do espaço ganham a tela

Primeira noite de competição do Festival de Brasília tem fortes concorrentes

Jornal do Brasil TONY TRAMELL*, especial para o JB

BRASÍLIA - A primeira noite da competição oficial do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro apresentou filmes que dialogavam muito entre si, apesar da diferença de gêneros, ambos abordaram a opressão e o desaparecimento do espaço. Tanto o documentário “Torre das donzelas”, de Susanna Lira, sobre presas políticas durante a ditadura (incluindo a ex-presidente Dilma Roussef), quanto a ficção “Los silencios”, de Beatriz Seigner, sobre a sobrevivência de uma família numa ilha entre Brasil, Colômbia e Peru, souberam trabalhar muito bem as questões dentro de suas propostas.

A diretora Beatriz Seigner chegou ao projeto através da história de uma amiga cujo pai desapareceu e reapareceu na casa dela até sumir de vez. Durante a pesquisa, descobriu que era um lugar comum na comunidade colombiana. “Vi que alguns mudaram de nome no Brasil por causa do medo de retaliação, tendo uma vivência clandestina”, conta. O longa, que estreou e foi bem recebido na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes, narra a história de uma família que foge dos conflitos armados na Colômbia, buscando uma indenização pela suposta morte do pai. Escondidos em uma casa de palafitas, cada membro da família busca uma forma de continuar lidando com sua dor e mantendo segredos. “Los silencios” é um filme que retrata o horror de uma guerra, mas sempre fora de quadro, a violência não é vista, mas a diretora tem a sensibilidade para fazer com que o público saiba que ela está lá.

“Los silencios” traz personagens fortes, como a avó, uma mulher que luta para que as pessoas não sejam tiradas da ilha (situação já vivida pela interprete do papel na vida real). “É muito uma questão de olhos, porque agora que a gente está voltando para visualizar as nossas personalidades históricas. Mulheres na história do patriarcado que iam sendo esquecidas. Agora está se tomando essa consciência, são famílias de militância política. Diante de muitos pais ausentes, essas avós são a força dessa luta transgeracional. Lutaram pra gente poder estar aqui, uma luta do planeta todo”, falou a diretora. Enrique Diaz, principal personagem masculino, declara: “Fico orgulhoso de trabalhar com uma diretora, numa equipe bastante feminina, num filme muito feminino. A narrativa é tão flow, que quando ela coloca aquela parte da televisão sobre o plebiscito falando das mulheres na política fica aquela sensação sobre o que estamos vivendo agora”. Beatriz Seigner acrescenta sobre como acontece esse diálogo nesse momento da história: “É uma vanguarda. Os filmes mais interessantes, as questões mais interessantes que a gente tá acostumado a olhar do nosso eixo de visão estão aí. Eles não estão fazendo caridade, eles perceberam que as pessoas nesses corpos que estão produzindo são quem estão trazendo conteúdo relevante”.

A diretora levantou a questão sobre olhar para nossos vizinhos. Seu filme de estreia “Bollywood Dream – O sonho de Bollywood” fala de brasileiras que sonham com uma carreira na Índia. Seu próximo projeto será na África. “É um processo, umas amigas me procuraram para saber pois já havia morado lá. ‘Los silencios’ envolveu a história de uma amiga, o da África foi um amigo meu que disse o que queria fazer lá e me interessei. Me toca e eu quero fazer. Talvez seja um lugar meu de não se sentir encaixada, de me sentir meio alienígena onde quer que eu esteja”.

A diretora Suzanna Lira fala sobre seu processo criativo. “ Escolhemos quem ia falar. Mas tudo virava uma espécie de assembleia, tudo era feito no discurso do coletivo. Na primeira etapa, tinha entrevistas de quatro a cinco horas, de cada uma das 25 mulheres. Material para fazer uma série de dez episódios, mas a gente precisava construir um filme com uma linguagem cinematográfica. ‘Dogville’, do Lars Von Trier, sempre foi uma referência porque ele fala sobre o espaço da opressão e outro filme que também serviu de inspiração foi “César deve morrer”, que é sobre presidiários encenando uma peça”.

A diretora diz que trabalhou com essas duas referências o tempo todo porque tinha depoimentos ótimos. “Poderia ter trabalhado como o mestre Eduardo Coutinho, mas eu precisava trazer a pulsão do que foi essa Torre. Nós não estamos falando de pessoas maduras que foram presas, estamos falando de pessoas jovens, que foram presas no auge de suas vidas”.

Ela também explicou sobre uma ausência maior de Dilma Roussef, que também esteve presa na Torre. “A falta da Dilma é mais reconhecida por ser quem ela é. Ela marcou duas vezes com a gente, mas foi na época do impeachment e ela precisou se defender antes. A agenda dela mudou e outras mulheres não foram também por questão de saúde”, justifica.

O documentário teve uma recepção calorosa na Capital e a primeira noite de competição mostrou que os concorrentes que representam uma nova voz no audiovisual chegaram com força e talento.

*Assistente de direção e jornalista



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