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Cultura

Maluquez misturada com lucidez

Maria Padilha estreia hoje seu primeiro monólogo, baseado em livro de escritora esquizofrênica recém-redescoberta

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.com.br

E eis que o acaso leva aos sãos o que uma louca fez consciente. Foi assim que um presente desviou Maria Padilha do caminho que ela escolhera, com o diretor Sergio Módena, para encenarem um monólogo sobre os textos de Anton Tchekhov (1860-1904). Ele veio das mãos de Ney Latorraca, que deu à amiga “Hospício é Deus” (1965) e “O sofredor do ver” (1968), os dois livros publicados por Maura Lopes Cançado (1929-1993), relançados em 2014. A partir dali, a atriz começou a trocar o escritor e médico ucraniano por uma paciente mineira que passou a vida se internando voluntariamente em hospitais psiquiátricos.

Foi o primeiro livro que Pedro Brício adaptou para criar o texto do monólogo “Diários do abismo”, que a atriz estreia hoje no Teatro 2 do Centro Cultural Banco do Brasil.

Macaque in the trees
Maria Padilha faz seu primeiro monólogo, em cima dos textos da escritora (Foto: Divulgação)

Durante os períodos dessas numerosas internações, era de dentro dos hospícios que Maura enviava seus textos, elogiados por escritores como Mário Faustino, Reynaldo Jardim e Carlos Heitor Cony. Começou com Ferreira Gullar, a quem, em 1956 – em um intervalo entre esses períodos –, Maura entregou poemas que a qualificaram a escrever para o Suplemento Dominical do JORNAL DO BRASIL.

Não faltaram surtos na redação, que a levaram a jogar uma máquina de escrever pela janela e uma estante sobre um colega – como, em 1972, novamente internada, a levariam a estrangular e matar uma colega da Casa de Saúde Doutor Eiras, em Botafogo. Vinha desde a infância, porém, a história de linhas tão tortas da escritora, que foi considerada inimputável pelo assassinato e mantida no Hospital Penal da Penitenciária Lemos de Brito.

“Ela nasceu em um família muito rica – chegou a ganhar um avião de presente –, mas meio tosca”, comenta Maria Padilha, que afirma ter se apaixonado pela “lucidez que mostrava sobre as coisas ao seu redor, em meio à loucura”.

Foi aos 18 que Maura se internou pela primeira vez e a diagnosticaram como esquizofrênica, após ter se casado aos 14 anos, tido seu único filho aos 15 e se separado pouco depois. “Às vezes, fica muito surrealista – ela tem muito liberdade poética –, mas, ao mesmo tempo, demonstra muita lucidez contando as coisas do hospício, sobre as mulheres. Questionava, por exemplo, ‘Por que ninguém castiga um tuberculoso quando ele vomita sangue?’, se referindo aos castigos aplicados aos doentes mentais, como choques”, ressalta Maria Padilha. “Ela põe hospício e Deus no mesmo lugar; está falando com os dois mistérios que ela não entende”, acrescenta.

“Eu devo ser louca, porque penso igual à ela”, brinca a atriz de 58 anos, que encena seu primeiro monólogo no momento em que completa quatro décadas de carreira, mas afirma que a estreia solo junto com a efeméride se trata apenas de coincidência.

Macaque in the trees
Maura segura dois exemplares de seu livro agora adaptado (Foto: CPDoc JB)

“Colocar outros personagens tiraria a força do confessional”, afirma Sergio Módena, que, antes de dirigir o monólogo, avaliou e avalizou o potencial dramatúrgico de “Hospício é Deus” a pedido da atriz. “A Maria me perguntou: ‘Você acha que dá teatro?’ Eu respondi que dava – e muito. Mais do que isso, era mais urgente do que o Tchekhov”, lembra Módena, ressaltando o “interesse acadêmico” que a autora ganhou a partir da década passada, após passar décadas praticamente esquecida. “Levamos para o Pedro Brício adaptar e ele concordou. Impressionou a todos nós a lucidez, a consciência com que ela falava sobre religião, loucura, amor, abandono, solidão”, enumera o diretor.

Maria Padilha reforça a opção por construírem “texto e interpretação baseados em nos textos de Maura e em como ela se revelava através deles, não em tentar reproduzir como ela era por trás de sua literatura. “Até pensei em fazer dessa forma, e, para isso, procuramos e encontramos pessoas que a conheceram, como o neto dela. Só que, em dado momento, concluímos que o melhor seria mostrá-las pelo que ela deixou escrito”, explica. “Não me preocupei em fazer sotaque de mineira”, exemplifica a atriz, garantindo que a montagem sobre os textos de Tchekhov “foi adiada, mas ainda vai sair”.

Com realização da Cena Dois Produções Artísticas e direção de produção da Oficina Teatral, “Diários do abismo” tem iluminação de Paulo César Medeiros e projeções de Batman Zavareze, sobre cenário de André Cortez e figurinos de Marcelo Pies, com trilha sonora e composição musical original de Marcelo H.

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SERVIÇO

DIÁRIOS DO ABISMO - CCBB. Rua Primeiro de Março, 66 - Candelária; Tel: 3808-2020. De hoje a 5 /11, das quintas às segundas-feiras, sempre às 19h30. Duração: uma hora. Entrada: R$ 30 e R$ 15, na bilheteria local ou pelo site Eventim. Capacidade: 156 lugares. Classificação: 12 anos.



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