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Cultura

A Babel do Oscar

Produções de 31 países já estão inscritas na disputa pela estatueta de melhor filme estrangeiro da Academia de Hollywood: o potencial candidato brasileiro será escolhido hoje

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, Especial para o JB

Produções nacionais aclamadas nos festivais de Cannes, Sundance, Roterdã, Locarno e Havana – caso de “O Grande Circo Místico”, “Ferrugem”, “Benzinho”, “As boas maneiras” e “Aos teus olhos” – e mais uma gama de longas-metragens de diferentes estados do país integram o rol de concorrentes ao posto de candidato brasileiro a uma vaga pela disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2019: um dos inscritos vai ser escolhido hoje, por uma comissão formada pelo Ministério da Cultura.

A briga em que o eleito vai se envolver promete ser boa, a julgar pela lista de potenciais competidores internacionais já submetidos à apreciação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Até agora, 31 nações já anunciaram quais serão seus gladiadores para uma peleja que vai se realizar no dia 24 de fevereiro – o anúncio de quem vai competir sai antes, em 22 de janeiro. Para as cinco vagas ainda em aberto para a estatueta, há longas com status de “filmaço” garantido por grandes mostras do exterior, como é o caso do belga “Girl”, de Lukas Dhont, ganhador de quatro troféus em Cannes, em maio, entre eles a Queer Palm, a Palma LGBTQ, ao falar de uma bailarina trans.

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Centrado na luta de afirmação de uma bailarina trans, "Girl", drama premiado no Festival de Cannes, é o candidato da Bélgica (Foto: Divulgação)

“O mundo tem uma urgência por histórias acerca de afirmação de identidade de gênero, pois elas canalizam o tema da tolerância”, disse Lukas ao JB na Croisette, ciente de que seu longa (de estreia) está cercado de uma campanha de marketing tamanho GG para papar todos os troféus hollywoodianos daqui até fevereiro.

Foi em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, que o casal de cineastas colombianos Cristina Gallego e Ciro Guerra, viram “Pájaros de verano” se tornar um acontecimento com seu olhar sobre a gênese do tráfico de drogas por lá, sob o ponto de vista do impacto do crime na vida de comunidades ameríndias. Ciro já é conhecido nos EUA por “O abraço da serpente”, que foi indicado ao Oscar em 2016. Agora, ele pode entrar na disputa outra vez.

Também do balneário francês vem outro dos prováveis nomeados ao Oscar 2019: a comédia dramática japonesa “Shoplifters”, que deu a Hirokazu Kore-eda a Palma de Ouro. Tocante do começo ao fim, o longa aborda a transformação na rotina de golpes de uma família de ladrões depois que eles adotam uma garotinha. “Eu falo de cenas da vida, das viradas corriqueiras que acontecem na dramaturgia do Real”, disse Kore-eda em Cannes.

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Ambientado na Zâmbia, "I am not a witch" representará o Reino Unido na luta pelo Oscar de filme estrangeiro (Foto: Divulgação)

Encerrado no último sábado, na Itália, o Festival de Veneza também revelou títulos já inscritos na Academia, como é o caso do drama alemão “Never look away”, de Florian Henckel von Donnersmarck, oscarizado em 2008 por “A vida dos outros”. Seu novo longa segue os passos de um artista plástico que tenta uma nova vida na Alemanha Ocidental após uma série de traumas ligados à II Guerra e a edificação do Muro de Berlim. Há quem diga que o ganhador do Leão de Ouro, “ROMA”, de Alfonso Cuarón, vá representar o México na caça aos prêmios da Academia, mas tudo vai depender das negociações da Netflix, que vai lançar o filme em sua plataforma de streaming em paralelo à carreira dele pelas telonas.

Da Espanha, esperava-se uma possível inscrição de “Todos lo saben”, com Penélope Cruz e Javier Bardem, para a seleção da Academia, mas o inscrito foi outro: “Campeones”, de Javier Fesser, uma comédia esportiva pautada pela inclusão. Sucesso de público em solo espanhol, o longa de Fesser aborda os esforços de um treinador de basquete para entrar em campo com uma seleção de jogadores com necessidades especiais.

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"Never look away" é o candidato da Alemanha (Foto: Divulgação)

Da Coreia, o representante será “Burning”, de Lee Chang-dong, sobre um piromaníaco. A Ucrânia optou pelo thriller “Donbass”, de Sergey Loznitsa, sobre manipulação política em solo eslavo. Já a Turquia inscreveu “The wild pear tree”, de Nuri Bilge Ceylan, hoje seu mais aclamado diretor. E até o Reino Unido, que fala Inglês, resolveu inscrever um competidor, só que falado em outro idioma: “I am not a witch”, da jovem diretora de origem africana Rungano Nyoni, foi rodado na Zâmbia, em dialetos locais, falando de uma menina que é considerada bruxa.

Que os melhores desses filmes entrem em campo.

*Roteirista e crítico de cinema



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