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Cultura

De volta para o futuro: reação puxada por streaming anima conferência do mercado musical

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.com.br

Em 2013, quando a Associação Brasileira de Música Independente (Abmi) realizou a primeira conferência anual, o fluxo era contínuo, para baixo havia mais de uma década. Desde a virada do milênio, inovações tecnológicas da informática permitiam ao público acessar música de graça, à revelia das gravadoras, que tentavam, em vão, impedir a pirataria por meios jurídicos. Ao mesmo tempo, o preço dos CDs havia ficado muito caro para pessoas de baixo poder aquisitivo e a programação das estações de rádio, muito limitada, perdendo para canais da internet, como o YouTube, o posto de plataforma preferencial de lançamento de novidades da música.

Passados cinco anos, o Rio Music Market chega à sexta edição, com artistas produtores e executivos, em um panorama invertido. Ainda que longe da pujança dos tempos em que as grandes gravadoras imperavam e disputavam artistas com contratos milionários, a indústria vem, desde 2015, em um viés, graças ao sucesso de parcerias com empresas de streaming e de novos hábitos dos consumidores de música, que voltaram a pagar para ter acesso ao conteúdo disponibilizado em plataformas, como Spotify, Deezer, Apple Music, Google Play, IMúsica e o Naspster – que entrou em acordo com gravadoras, nos Estados Unidos, e se tornou um serviço legalizado.

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Disponíveis em smartphones, plataformas de música, como o Spotify, formam o segmento que puxou a volta da alta de faturamento do mercado fonográfico (Foto: Divulgação)

“Nos últimos três anos, o mercado de streaming aumenta em números absolutos no mundo todo, mas, no Brasil, ele vem tendo um crescimento particularmente robusto”, comemora Carlos Mills, presidente da associação que reúne gravadoras fora de grandes corporações, como Tratore e Biscoito Fino. “No ano passado, o mercado mundial cresceu cerca de 8%, em relação a 2016, enquanto que, no Brasil, essa alta foi de 18%”.

O crescimento, ele ressalta, levou a indústria fonográfica a entrar novamente entre as dez maiores do mundo, com um faturamento em torno de R$ 800 milhões no mercado de música digital. “Das receitas digitais, mais de 90% vem do Streaming (Spotify, Apple Music, Deezer). A soma é quase dez vezes maior que o valor de vendas de produtos físicos (CDs, DVDs musicais e vinil), que ficaram em torno de R$ 70 milhões”, enumera o executivo.

Essa reação dá um panorama geral da Rio Music Market, que, de amanhã a quinta-feira, aborda diversos assuntos relacionados ao mercado e à produção fonográfica, em 16 palestras e oficinas, no Crab (Centro de Referência do Artesanato Brasileiro), na Praça Tiradentes. 

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"Em 2017, o mercado digital de música cresceu 8% em nível mundial; no Brasil, subiu 18%", destaca Carlos Mills, presidente da ABMI (Foto: Divulgação)

Os temas vão de marketing digital, amanhã, das 16h30 às 18h; a biografias musicais, no mesmo horário, na quinta-feira, com escritores como Rodrigo Faour, autor de “História Sexual da MPB”, e Paulo César de Araújo, da censurada biografia “Roberto Carlos em Detalhes”.

Com participantes como Marcelo Castelo Branco, presidente da UBC (União Brasileira de Compositores), o painel “Abismo de valores”, das 10h às 11h45 de quarta-feira, bate em uma queixa ainda persistente de autores e editoras musicas, que apontam baixo pagamento de direitos autorais em plataformas gratuitas. “Existe uma negociação com o YouTube [pertencente à Google], nos Estados Unidos, para que aumente o valor pago pelas músicas postadas no site e no app, que é considerado muito baixo”, diz Carlos Mills. Ele admite que isso pode levar o YouTube a cobrar pelo acesso ao seu conteúdo, mas pondera que outras alternativas estão em discussão.

Aqui e no exterior, a mudança de geração e a praticidade recuperaram o hábito de se pagar por música. “Além de vir agora uma turma mais jovem, toda ligada no streaming, o aumento de smartphones – são 220 milhões no Brasil, tem mais smartphones do que brasileiros – facilita esse hábito. As pessoas veem que vale a pena pagar barato para ter toda a música disponível no celular”, enaltece Mills, sobre um fenômeno em que, majoritariamente, os filhos é que ensinam aos pais, os quais passam também a consumir música digital. “Uma lista de milhares de músicas custa, mais ou menos, o preço de um CD a cada dois meses e os planos familiares ainda são mais baratos”, acrescenta.

Embora restrito a um nicho, o mercado dos LPs, que também voltou a crescer, graças ao interesse de colecionadores e pessoas mais ligadas à arte de suas capas e encartes, tem um painel específico, “A volta do vinil”, das 114h às 15h de amanhã, com Michel Nath, da Vinil Brasil – fábrica aberta em 2017, em São Paulo – e o baterista Charles Gavin, apresentador do programa “O som do vinil”, do Canal Brasil, com mediação da jornalista Chris Fuscaldo.

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Rio Music Market (Foto: Divulgação)

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Serviço

RIO MUSIC MARKET 2018

CRAB. Praça Tiradentes, 69 - Centro.

De amanhã a quinta-feira, das 10h às 19h. Programação e inscrições em www.riomusicmarket.com.br.



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