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Cultura

Frederick Wiseman coloca foco na América esquecida pelos holofotes

"Monrovia, Indiana" registra cotidiano da cidadezinha do interior dos EUA que levou Trump à Casa Branca

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

De acordo com estatísticas do censo dos Estados Unidos, a cidadezinha de Monrovia, Indiana - cujo nome dá título ao novo longa-metragem do cultuado documentarista Frederick Wiseman – contabiliza cerca de 1.060 habitantes, espalhados por sua área de 4,6 km² dedicada à criação de gado e a pequenas atividades agrícolas. Foi graças a lugares como esse, assumidamente conservadores em relação a valores políticos e transgressões morais, que Donald Trump foi eleito presidente. Daí o interesse do octogenário realizador, responsável por marcos do real nas telas, como “Near death” (1989) e “Titicut Follies” (1967), em dissecar aquele ambiente rural, em uma narrativa pautada pela perplexidade. Uma narrativa que encantou espectadores em sua passagem pelos festivais de Veneza e de Toronto. Em ambos, a produção foi apontada como um potencial concorrente ao Oscar de melhor longa documental, sobretudo pelo fato de o cineasta ter recebido da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood uma estatueta honorária pelo conjunto de sua obra, iniciada há 51 anos.

Macaque in the trees
Frederick Wisemane é autor de documentários clássicos (Foto: Divulgação)

“Não venha com essa de me chamar de pop. Fico feliz que o Brasil se interesse por mim, ao convidar meus filmes para seus festivais mais importantes e gosto de saber que as pessoas ainda possam se interessar pelos recortes da Realidade que eu busco fazer. Mas não aceito o tratamento de popstar que tentam me dar, agora, depois de cinco décadas de trabalho, para tentarem fazer o cinema documental um produto. Não estou preocupado com badalações”, disse Wiseman em recente entrevista ao JB, às vésperas de Veneza, onde foi promover a estreia mundial de “Monrovia, Indiana”, elogiado mundialmente pela crítica.

Macaque in the trees
Produção sobre a cidade no interior do Indiana é uma das atrações aguardadas para o Festival do Rio (Foto: Divulgação)

Azedo à primeira vista, quando começa a ser assediado pela imprensa, Wiseman, hoje com 88 anos, fez da discrição uma virtude essencial a seu trabalho: em meio a celebridades do cinema, ele passa despercebido, embora tenha uma filmografia estudada pelo mundo afora, sempre presente em festivais como os de Cannes, Veneza, Berlim e o brasileiríssimo É Tudo Verdade. Já ganhou o Emmy (por “Hospital” e “Law and Order”), o prêmio de melhor .doc do Festival de Marselha (por “Public Housing”), um troféu da Federação de Críticos e uma série de láureas pelo conjunto de sua carreira. Filmes recentes dele, como “La Danse” (2009) e “Crazy Horse” (2011), tornaram-se sucessos de audiência. Mas nada disso mudou seu método de trabalho: observar e deixar o objeto se revelar para a câmera sem interferências, sem proselitismos.

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"Ex Libris", feito em Nova York, saiu no ano passado (Foto: Divulgação)

“O que eu aprendo de cada realidade é aquilo que você vê nos filmes, sem teses prévias. Eu tenho uma técnica, que é sempre a mesma, e busco estabelecer relações entre os universos que filmo”, disse Wiseman em recente entrevista por e-mail ao Jornal do Brasil, enquanto finalizava “Monrovia, Indiana” com imagens da vida no campo, com vacas pastando, buscando rituais cotidianos de pessoas que enxergaram em Trump um salvador da economia dos EUA.

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"Em Jackson heights" abriu a trilogia em 2015 (Foto: Divulgação)

Parte de uma trilogia que Wiseman iniciou em 2015, com “Em Jackson Heights”, e seguiu em “Ex Libris: The New York Public Library”, de 2017, “Monrovia, Indiana” é um retrato cru dos rincões da América, com pessoas que discutem sobre a importância de um banco de praça e sobre a gravidade de uma paralisação do serviço dos Correios. “Sabemos muito sobre a vida nas metrópoles americanas, pois o cinema de ficção se debruça sobre os mais variados pontos da geografia das grandes cidades. Mas pouco se fala sobre a importância de uma comunidade agrícola para realidade contemporânea dos EUA. Este meu novo filme é apenas um modo de compartilhar aquilo que observei desse pequeno mundo de cidades do interior”, disse Wiseman em um comunicado à imprensa em Veneza, contestando a ideia de as pessoas que filmou sejam figuras invisíveis. “Não existe invisibilidade no cinema. Assim que a câmera passa por alguém e flagra este indivíduo em suas atividades mais simples, ele já ganha subjetividade poética”. “Monrovia, Indiana” é uma das atrações esperadas para o Festival do Rio, em novembro.

*Roteirista e crítico de cinema



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