Jornal do Brasil

Cultura

Rugidos para a Netflix

Esnobado em Cannes, o popular serviço de streaming sai do Festival de Veneza coroado

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Múltiplas virtudes levaram “ROMA”, produção Netflix dirigida pelo mexicano Alfonso Cuarón, a receber o Leão de Ouro no fecho do 75º Festival de Veneza, na tarde de ontem, na Itália, como sua refinada fotografia em preto e branco ou a delicadeza de seus diálogos ao recriar a classe média latino-americana do anos 1970. Porém o que mais importa à indústria do audiovisual na sua consagração é o fato de que o serviço de streaming mais popular do mundo na atualidade ter, enfim, conquistado na Meca do cinema autoral um prêmio que é sinônimo de prestígio. Há um ano, o Festival de Cannes virou as costas pra Netflix, questionando sua opção de favorecer telinhas (do computador, do celular ou de TVs) como sua vitrine final, ignorando as salas de exibição. Só alguns de seus produtos originais de longa-metragem vão a cartaz, como “ROMA” irá. Mas Veneza - que flerta com a Netflix desde 2015, quando abriu vaga em sua competição para “Beasts of no nation”, um dos primeiros sucessos do streaming - agora resolveu assumir, com pompas, seu casamento com as novas narrativas que as mídias digitais podem gerar. O Leão é a aliança desse matrimônio entre a tradição e... o futuro.
“Não podemos viver sem opções acerca de como vamos poder ver um filme, se no cinema ou em outro suporte. Mas, eu pergunto, quando foi que vocês viram um filme de um mestre como Robert Bresson ou Yasujiro Ozu na tela grande? A maioria de nós, que viemos depois da morte deles, vimos seus filmes na TV ou em DVD ou em outro suporte. Tudo se adapta”, disse Cuarón, na projeção de seu filme, premiado em Veneza por um time de jurados chefiado por um conterrâneo seu, o cineasta Guillermo Del Toro, também do México, que levou o Oscar pra casa este ano com “A forma da água”, ganhador do Leão de Ouro de 2017.
O uso de letras maiúsculas em “ROMA” é uma brincadeira com a palavra “amor”. Em seu novo e confessionalíssimo trabalho, o oscarizado realizador de “Gravidade” (2013) e do cult “E sua mãe também” (2001) revive a crise familiar de uma química, Sofia (Marina de Tavira), cuja paz vai entrar em xeque em meio a viradas em sua vida afetiva e em seu país. Tudo é narrado sob a ótica de sua empregada, uma jovem ameríndia, Cleo (Yalitzia Aparicio).
“Eu tive uma babá ameríndia que marcou a minha infância e este filme é uma recordação do que vivi com ela”, disse Cuarón, que tem em “ROMA” seu “Amarcord”, algo tão memorialístico quanto o de Fellini.
Além de “ROMA”, a Netflix ainda emplacou pra si o prêmio de melhor roteiro, dado a um western com aura de chanchada, “The ballad of Buster Scruggs”, dos indefectíveis irmãos Joel e Ethan Coen. Não é nem de longe um grande trabalho da dupla responsável por “Onde os fracos não têm vez” (2007) e “Fargo” (1996), mas carrega uma grife de respeito e tem Tom Waits em um momento luminoso no papel de um garimpeiro zangado. Há quem defenda que se tratava de uma série condensada em longa: são seis episódios curtinhos, sem uma unidade temática, sobre modos de se viver no Velho Oeste.

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“Fomos encontrando a linha de edição ao longo da filmagem, mas há episódios que flertam diretamente com a linguagem do spaghetti western italiano, como o trecho estrelado por James Franco, e há uma evocação aos clássicos do caubói Roy Rogers”, disse Ethan Coen ao JB. “O faroeste é um gênero muito plural”.
Fora da festa da Netflix, o diretor grego Yorgos Lanthimos, responsável por longas polêmicos como “O Lagosta” (2015) e “O sacrifício do cervo sagrado” (2017), viveu momentos de glória na premiação, da qual saiu com dois troféus graças ao virtuosismo de seu “The favourite”. Recebeu o Grande Prêmio do Júri e viu a inglesa Olivia Colman (de “The Crown”) ser coroada melhor atriz. Um dos filmes mais divertidos e debochados de Veneza em 2018, o longa de Lanthimos se passa bem longe da Grécia: na Inglaterra do século XVIII, imersa em guerras com a França, a Rainha Anne (Colman, em magnífica atuação) se rasga em berros de dor por uma gota que incha seu pé. Anne só desfruta de alguma bonança quando abusa do corpinho de sua mais querida nobre: Lady Sarah, vivida por Rachel Weisz. Sarah gosta de poder e, por isso, não vê problemas em deleitar sua monarca com seus beijos e toques – em cenas picantes. Mas a chegada de uma jovem e sabia aia (Emma Stone) vai desafiar a boa vida de Sarah.
“Eu nunca tinha feito um filme de época antes, sempre preocupado com questões do mundo contemporâneo, mas a oportunidade de olhar para trás e falar do poder feminino na História foi um convite tentador”, disse Lanthimos, cujo longa é uma aposta para o Oscar 2019, dado o encanto que causou em Guillermo Del Toro, frente a um time de concorrentes de peso.
Além de Del Toro, o júri de Veneza, multinacional, agregou a taiwanesa Sylvia Chang (atriz e cineasta), a dinamarquesa Tryne Dyrholm (estrela do festejado drama “Nico, 1988, em cartaz no Brasil); a francesa Nicole Garcia (cineasta); o italiano Paolo Genovese (diretor); a polonesa Malgorzata Szumowska (uma das maiores realizadoras da Europa hoje); o neozelandês Taika Waititi (que dirigiu “Thor Ragnarok”); o austríaco Christoph Waltz (imortalizado na pele do nazista Hans Landa de “Bastados Inglórios”) e a inglesa Naomi Watts (uma das atrizes mais prolíficas da atualidade). Foram eles que decidiram, em conjunto, dar ao francês Jacques Audiard o prêmio de melhor direção por uma incursão ao mais americano dos gêneros: o faroeste. O realizador de blockbusters como “Ferrugem e osso” (2012) e “O Profeta” (2009) cavalgou pelo mítico terreno do western com “The Sisters Brothers”, arrancando de John C. Reilly uma comovente atuação. Ele é Eli, um temido pistoleiro cansado de matar... e de curar as bebedeiras do irmão, Charlie (Joaquin Phoenix)... que se vê obrigado a caçar um químico procurado pela Justiça. A releitura de Audiard para a cartilha do bangue-bangue evoca a estética de mestres como Howard Hawks (“Rio Bravo”) e John Ford (“Rastros de ódio”).
Apesar da torcida pró-Reilly, a Copa Volpi, nome dado aos prêmios de melhor interpretação, acabou, entre os homens, nas mãos de Willem Dafoe, pela visceral recriação da vida de Van Gogh em “At Eternity’s gate”, de Julian Schnabel. Embora tenha dividido opiniões no Lido, por sua aposta num ensaio poético calcado nos quadros do próprio pintor, em vez de reviver fatos de sua biografia, o novo longa do realizador de “O escafandro e a borboleta” (2007) desponta já como um favorito ao Oscar, colocando Dafoe na marca do gol hollywoodiano.
“Existe um componente de loucura na forma de atuar que só se faz interessante quando a gente se apropria dele com distanciamento crítico”, disse Dafoe ao JB, em meio à produção do longa de Schnabel. “Atuar é saber se pôr à prova até nas suas convicções”.
Única mulher cineasta entre os candidatos ao Leão deste festival, a australiana Jennifer Kent deixa Veneza com o Prêmio Especial do Júri por “The nightingale”, uma trama de vingança ambientada na Tasmânia do século XIX. Seu filme recebeu ainda o Troféu Mastroianni de atriz ou ator revelação, dado a Baykali Ganambarr pelo papel de um rastreador aborígene.
Elogiado nas mais variadas línguas em sua passagem pela competição, “Sunset”, drama sobre a Hungria nos tempos da I Guerra, recebeu o Prêmio da Crítica da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), consagrando o prestígio de seu realizador, Lászlo Nemes. Revelado em “O filho de Saul” (2015), a produção segue os passos de uma jovem em busca do paradeiro de um possível parente em meio a um conflito global.
Terminado Veneza, as atenções do mundo cinéfilo se dividem entre a Espanha e a Inglaterra, de um lado com o Festival de San Sebastián - que começa no próximo dia 21, com Ricardo Darín sofrendo de paixão em “Um amor menos pensado” –, do outro com o BFI London Film Festival. Este começa no dia 10 de outubro, em Londres, com o thriller policial “Viúvas”, de Steve McQueen, e termina no dia 21 com “Stan & Ollie”, a biografia de O Gordo e o Magro. E tudo o mais agora é um esquenta para o Oscar, que não vai se esquecer de “ROMA”.
* Roteirista e crítico de cinema



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