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O crítico do Brasil

O escritor Antônio Cândido ficou conhecido pela defesa do acesso de todos aos livros

Jornal do Brasil MÁRCIO SALGADO*

O sociólogo e crítico literário Antônio Cândido de Mello e Souza (1918-2017) é um personagem raro na história intelectual do Brasil. Com um trabalho que muitas vezes ultrapassa as fronteiras da Sociologia e da Literatura, ele pode ser considerado um intérprete do país, numa empreitada em que poucos alcançaram êxito.

No ensaio “O direito à literatura” (1988), Antônio Cândido defende a capacidade de todas as pessoas terem acesso à literatura, partindo do princípio de que a fabulação é uma necessidade básica do ser humanoe na convicção sobre oenriquecimento produzido em cada um pela leitura.

Com base no tema da literatura como direito universal, o Itaú Cultural promoveu em São Paulo a “Ocupação Antônio Cândido” que celebra o centenário do seu nascimento, com recortes literários e depoimentos de familiares, amigos e escritores que conviveram com ele.

Nascido em 24 de julho de 1918, no Rio, Antônio Cândido logo mudou-se com a família para o interior de Minas Gerais e, depois, para São Paulo. Por isso, ele se definia como “um intelectual paulista que é mineiro nascido no Rio de Janeiro”. Cândido completaria 100 anos em 2018. Não chegou a tanto, mas o tempo lhe foi generoso e ele não desperdiçou: dedicou-se com afinco à elaboração de estudos e teses nas áreas da Literatura, da Sociologia e Humanidades, e ao magistério na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - USP.

Cândido iniciou a carreira de docente na USP como assistente de Sociologia do professor Fernando Azevedo, autor de livros sobre a educação e a cultura brasileira. Influente à época, Fernando Azevedo formava ao lado de Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda uma tríade de intérpretes do Brasil, com evidentes distinções em suas abordagens.

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Ao contrário de seus contemporâneos, Antônio Cândido não fazia menção à própria obra (Foto: Reprodução)

Embora mais jovem do que estes autores, observamos em Antônio Cândido este impulso que revela a cultura de um país. Contudo, ele realizou um percurso muito próprio, tomando como objeto de estudo a obra dos nossos escritores e poetas, com análises que incorporam influências da crítica marxista. E nessas análises, Cândido é preciso na forma de expressar os seus juízos. A sua erudição não o tornou um teórico empolado, ele encontra sempre a linguagem certeira.

Em 1956, Antônio Cândido idealizou osuplemento literário do jornal“O Estado de S. Paulo”, que circulou até 1966. A publicação é um marco da expressão intelectual no país. Em seus projetos, Cândido contou com a participação da ensaísta e professora universitária Gilda de Mello e Souza (1919-2005), com quem se casou em 1943. Deste casamento, que durou seis décadas, nasceram as filhas Ana Luísa, Laura e Marina.

Em 1980, Antônio Cândido participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) ao lado de outros intelectuais e amigos, como Sérgio Buarque de Holanda. Em 1998, em Lisboa, ele recebeu o Prêmio Camões dos governos do Brasil e de Portugal; e, em 2005, o Prêmio Internacional Alfonso Reyes, no México.

Cândido e o Modernismo

O pesquisador de Literatura e Música José Miguel Wisnik, que foi orientando de Cândido na USP, afirmou que, nas aulas, Cândido não fazia menção à própria obra, ao contrário dos catedráticos da época. Salientou ainda a sua capacidade de trabalhar com “diferentes métodos críticos, embora estabelecesse parâmetros refinados”. Sob a orientação do escritor, Wisnik desenvolveu a sua dissertação de mestrado sobre “A música no Modernismo”.

A propósito, o Modernismo brasileiro é o tema central na obra de Antônio Cândido: “o século literário começa para nós com o Modernismo”, ele afirma no ensaio “Literatura e cultura de 1900 a 1945”.

Se o Modernismo foi o seu tema, Oswald de Andrade foi o seu problema. Inspirado neste autor, Cândido escreveu algumas das mais belas páginas da crítica literária. A bem da verdade, páginas críticas. E que só confirmam a grandeza de ambos.

Crítico e poeta tiveram uma convivência nem sempre harmoniosa, durante algumas décadas. No campo pessoal, também não foi diferente. Cândido estava certo de que havia uma “mitologia andradina” que prejudicava a recepção da sua obra: “Mitologia um tanto cultivada pelo herói e que está acabando por interferir nos juízos sobre ele.”

O ensaio fundamental de Antônio Cândido sobre este autor modernista é “Estouro e libertação” (1944), onde ele traça um panorama da sua produção ficcional, em “três faces distintas”: a “Trilogia do exílio”; “Memórias sentimentais de João Miramar” e “Serafim Ponte Grande”; e “Marco zero”.

O escritor, a obra e o público

No ensaio “O escritor e o público” (1965), Antônio Cândido analisa aspectos da relação entre o autor, a obra e o público, e observa que nas sociedades modernas a criação artística surge basicamente da troca entre os grupos de criadores e receptores. Ao contrário da posição que considerava a ação do meio sobre o artista, a estética e a sociologia da arte modernas se voltam para este dinamismo da obra. E observa: “A literatura é pois um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a.”

Cândido argumenta, seguindo outros teóricos, que o público não é um grupo social coeso, mas “uma coleção inorgânica de indivíduos, cujo denominador comum é o interesse por um fato.”

Sobre a sua participação na vida política do país, Antônio Cândido observou, numa entrevista à revista de Filosofia “Transformação” (Unesp, 2011): “Por toda a minha vida, mesmo nos momentos de mais agudo esteticismo, nunca fui capaz de perder a preocupação com os fatores sociais e políticos, que obcecaram a minha geração.”

PRINCIPAIS OBRAS DE ANTÔNIO CÂNDIDO

Literatura e Sociedade, Editora Ouro sobre Azul, 2006

Formação da Literatura Brasileira, Editora Ouro sobre Azul, 2009

Vários Escritos, Livraria Duas Cidades, 1995

Ficção e Confissão: Ensaios sobre Graciliano Ramos, Ed. 34, 1992

A Educação pela Noite e Outros Ensaios, Ática, 1987

Brigada Ligeira, Editora Ouro sobre Azul, 2004

O discurso e a cidade, Livraria Duas Cidades, 1993

O observador literário, Editora Ouro sobre Azul, 2008

Tese e Antítese, Editora Ouro sobre Azul, 2006

*Jornalista e escritor, doutor em Comunicação pela ECO/UFRJ



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