Jornal do Brasil

Cultura

Ao mestre com carinho

Jornal do Brasil CLAUDIA CHAVES*, Especial para o JB

Trabalho de escola é algo tão traumatizante que carregamos essa dificuldade o resto da vida. Toda vez que se tem algo aborrecido, nos lembramos desses momentos. Então, fazer algo interessante é um desafio. Mas também brincar de teatro é algo que, em algum momento, se inventa ou se vai na onda de alguém. E descobrir a vida de alguém importante de quem não fomos contemporâneos? Basta só olhar a wikipedia? Recorrer a especialistas? Harmonizar a chatice com o prazer, perceber a relevância de alguém que jamais conhecemos, envolver amigos é o eixo de construção de “O choro de Pixinguinha”.

É mais um espetáculo da premiadíssima equipe que já produziu “Sambinha”, “Forró miudinho”, “Bossa Novinha”, musicais de formação para o público infantil. Mas, de forma fascinante, todos esses e mais o atual “Pixinguinha” são uma experiência que agrada do netinho à vovó, a todos aqueles que amam e que querem conhecer bem a música brasileira. O texto de Ana Velloso e Vera Novello, artistas plurais pois atuam, produzem, criam, é uma composição em que se utiliza da metalinguagem, uma peça dentro da peça, para mostrar os fatos mais relevantes da vida do compositor.

Como em um seriado, as crianças Bianca, Marilú, Beto, Júnior, Bianca e Lucinha , personagens da Trilogia anterior, são aquelas que aparecem para ajudar as duas primeiras a resolver um trabalho da escola sobre a vida de Pixinguinha e resolvem fazer uma peça de teatro. Interpretadas por Ana Velloso(Marilu), Vera Novello (Bianca), Patrícia Costa(Lucinha), Édio Nunes(Junior) e Milton Filho (Beto), que se revezam ainda nos papéis da biografia do compositor. Cantam e dançam as músicas que formam uma trilha sonora da força e do talento de Pixinguinha.

A direção de Sérgio Módena conduz para uma interpretação do grupos de atores/atrizes bem construída, pois não fazem aquela típica paródia de como as crianças se comportam e nem exageram em uma possível reprodução mimética dos personagens adultos. Equilibra ainda o vigor da dança, com a delicadeza das músicas interpretada Felipe Pedro Santos (cavaquinho); André Rente (violão); Ricardo Rente (sax); Jeferson Silva (flauta); André Vercelino (percussão). E quando os atores fazem papéis dos músicos se utilizam de instrumentos cenográficos criados por Marcelo Marques, também figurinista.

O telão dialoga com o que está sendo encenado, trazendo imagens documentais e desenhos que relembram e reavivam os elementos históricos. Com lombadas de livros sobre Pixinguinha, o cenário é utilizado para movimentar os atores que também trocam de figurinos facilmente reconhecíveis como roupas de época. Não se trata de nada realista, pois em crianças há que se estimular a fantasia, se aproximar do imaginário, o que o conjunto dos elementos cênicos realiza muito bem.

Do samba-enredo da Portela, ponto de partida para se contar a história, até o apoteótico e imortal “Carinhoso”, “O choro de Pixinguinha” contém todos os elementos importantes para que um teatro voltado a crianças e jovens seja realmente algo que os encante. É educativo e formador sem ser didático, provoca a plateia a participar só pelo prazer de engajar, tem o tempo de duração que não os cansa e melhor faz com que os adultos também aproveitem tão bela experiência.

 

* Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

SERVIÇO

O CHORO DO PIXINGUINHA

Oi Futuro (R. Dois de Dezembro, 63 - Flamengo; Tel.: 3131-3060)

Sáb. e dom., às 16h

Duração: 60 minutos

Classificação: Livre

Ingressos a R$ 20 e R$ 10

Macaque in the trees
Educativo, sem ser didático, o espetáculo “O choro de Pixinguinha”, de Ana Velloso e Vera Novello, provoca o público (Foto: Cláudia Ribeiro/ Divulgação)



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