Era uma vez no Oeste de Audiard

Jacques Audiard, diretor de O profeta, dá ao Festival de Veneza um western memorável

Frustrado pelos irmãos Coen e seu insosso “The ballad of Buster Scruggs” em seu sonho de encher as telonas do Lido com um faroeste com F maiúsculo, o 75º Festival de Veneza lavou sua alma com “The Sisters brothers”, uma revisão apaixonada da cartilha do Oeste feita por um francês. Coube a Jacques Audiard, realizador de cults como “O profeta” (2009) e “Dheepan: O refúgio” (Palma de Ouro de 2015) passar em revista as raízes do mais hollywoodiano dos gêneros. Sua direção é impecável, em especial nas cenas de ação. O mais curioso, contudo, foi ver John C. Reilly, um eterno coadjuvante, celebrado em filmes como “Magnólia” (1999) e “Chicago” (2002) roubar a cena de Joaquin Phoenix. Eles vivem os pistoleiros Eli e Charlie Sisters, maus, bons de mira, mas apaixonantes. Nenhuma atuação vista por Veneza até hoje foi mais emocionante do que a de Reilly.

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A atuação de John C. Reilly ofusca Joaquin Phoenix no faroeste comovente do cineasta francês (Foto: Divulgação)

“Quanto mais velho a gente vai ficando, mais valorosa é a simplicidade”, disse Reilly em Cannes, meses antes de “The Sisters brothers” ficar pronto. “O que existe de mais simples na arte de fazer filmes é saber valorizar as boas parcerias, os encontros”.

Sob essa lógica, a química entre Reilly e Joaquin é perfeita, sob a batuta do realizador de blockbusters da França, como “Ferrugem e osso” (2012). Na trama, os Sisters, caçadores de recompensa temidos, vão atrás de um garimpeiro (Riz Ahmed) que inventou uma fórmula para prospectar ouro nos rios. Mas o caminho até ele vai ser regado a chumbo.

“Gosto de figuras que quebram as convenções do arquétipo de herói pela sua fragilidade”, disse Phoenix no início das filmagens do longa de Audiard, que se baseia em romance de Patrick de Witt. “O desafio de um ator é não repetir aquilo que é óbvio”.

Neste caso, o desafio de Phoenix e de Reilly foi vencido com facilidade: a dupla nos dá os personagens mais ricos de todo o Festival de Veneza, até agora. Os manos Sisters são caubóis à altura da tradição dos grandes heróis de John Wayne, Gary Cooper e Clint Eastwood: impávidos, mas cheios de conflito. A cena em que Eli (Reilly) se deslumbra com a experiência de escovar o dente pela primeira vez na vida - não se esqueça de que a trama se passa no século XIX, quando hábitos de higiene são um luxo - foi um dos momentos mais lúdicos vividos no Lido neste ano repleto de fortes concorrentes ao Leão de Ouro.

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Filme de Roberto Minervini aborda racismo e pobreza de jovens negros nos EUA (Foto: Divulgação)

“ROMA”, de Alfonso Cuarón, segue imbatível como favorito, seguido de perto pelo controverso “Suspiria”, de Luca Guadgnino. No sábado, um documentário ambientado no sul dos Estados Unidos, porém dirigido por um italiano (Roberto Minervini), abriu uma brecha nobre para o real numa seleção competitiva dominada por ficções. “What you gonna do when the world’s on fire?” é um retrato da luta de jovens negros americanos para driblar a pobreza e a intolerância racial. O dinamismo de sua montagem amplifica a bruta realidade que documenta.

Nesta segunda, na briga pelo Leão, Veneza vai rever vida e obra de Van Gogh pelas lentes do artista plástico e cineasta bissexto Julian Schnabel, em “At eternity’s gate”. É Willem Dafoe quem assume o papel do pintor neste ensaio poético do diretor do cult “O escafandro e a borboleta” (2007). “Atuar é colecionar cores distintas para representar a existência”, disse Dafoe no início do ano ao ser homenageado, pelo conjunto de sua carreira, com um Urso de Ouro honorário, no Festival de Berlim. “O tempo torna ainda mais urgente a busca por um colorido mais diversificado”.

Também nesta segunda, o Lido confere um novo exercício autoral de uma grife da representação da violência em seu estado mais bruto: o diretor S. Craig Zahler, dos cultuados “Bone Tomahawk - Rastro de maldade” (2015) e “Confronto no Pavilhão 99” (2017). Ele traz ao festival um thriller com Mel Gibson e seu ator fetiche, Vince Vaughn: “Dragged across concrete”, no qual dois policiais de métodos brutais são obrigados a flertar com o crime.

Veneza termina no sábado, com a entrega de prêmios e a projeção de “Driven”, de Nick Hamm.

*Roteirista e crítico



A atuação de John C. Reilly ofusca Joaquin Phoenix no faroeste comovente do cineasta francês
Filme de Roberto Minervini aborda racismo e pobreza de jovens negros nos EUA