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Mostra na Cinemateca do MAM reúne filmes com o protagonismo feminino como tema principal

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO, monica.loureiro@jb.com.br

A temática feminina, com atenção especial para as produções dirigidas por mulheres, é o que molda “Século XXI: Mulheres, ação!”, mostra de cinema que acontece de hoje a domingo no Rio. “Homens acham que eles têm poder sobre os corpos das mulheres. Está tudo errado e não podemos mais ficar calados. A ideia da mostra veio no meio do ano passado e era algo bem mais amplo mas, diante do momento difícil do país e, principalmente, do Rio, acabou sendo um pouco enxugada”, conta a idealizadora Andrea Cals, que é produtora e curadora de festivais de cinema. Serão exibidos nove filmes (oito inéditos) do acervo do instituto feminista francês Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir, além de 25 nacionais na Cinemateca do MAM (Av. Infante Dom Henrique, 85 - Parque do Flamengo; Tel.: 3883-5630) e, do dia 12 a 16, no Instituto Moreira Salles em São Paulo.

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"Qui a peur des amazones?", de Carole Roussopoulos (Foto: Divulgação)

Ao lado das produtoras culturais Flavia Candida, Julia Mariano e Patrícia Barbara, Andrea inscreveu no projeto em editais e deixou pré-reservada uma data na Cinemateca do MAM. “Nós decidimos que não faríamos sem verba. Só que aconteceu uma coisa que me abalou demais, que foi a execução da Marielle Franco. A revolta aumentou e naquele momento senti que não podíamos nos omitir de forma alguma. O pessoal do MAM me ligou para confirmar e eu disse sim de imediato”, conta ela.

A mostra abre hoje, às 19h30, no Cinemaison, no Consulado da França (Av. Pres. Antônio Carlos, 58 - Centro; Tel.: 2544-2533), com as sessões de “Thokozani Football Club: Team spirit”, de Thembela Dick (África do Sul/2014) e “Baronesa”, de Juliana Antunes (BRA/2017). O média africano fala sobre “um time de futebol de lésbicas que tem esse nome em homenagem a uma jovem jogadora que foi assassinada pelo marido”, diz Andrea.

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"Baronesa", de Juliana Antunes, abre a mostra hoje no Cinemaison (Foto: Divulgação)

Na Cinemateca do MAM, a programação, que tem entrada franca, acontece de amanhã a domingo nos seguintes horários: Sessão Século XXI (filmes brasileiros que marcam uma transformação de comportamento feminino), às 14h; Sessão Simone de Beauvoir (dedicada ao acervo do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir, de Paris), às 16h; e Sessão #MulheresAção (produções que colocam em xeque a atual situação das mulheres no Brasil), às 18h.

A seleção de filmes nacionais foi feita levando em conta principalmente títulos que trazem o protagonismo feminino como tema principal, independente do seu ano de produção. Assim, há desde o recente “Chega de fiu-fiu”, de 2018, como o “Sou feia mas tô na moda”, de 2005, e o premiado teen “Mate-me, por favor”, de Anita Rocha da Silveira, de 2015.

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"Audre Lorde - The Berlin Years 1984 to 1992" (Foto: Divulgação)

Na parte estrangeira, Andrea chama a atenção para filmes dos anos 1970, onde diretoras pioneiras em utilizar câmeras portáteis iam para as ruas registrar movimentos gays e expressões feministas. “Na Sessão Simone de Beauvoir , há o importante ‘Sois belle et tais-toi!’, da musa da Nouvelle Vague Delphine Seyrig, de 1976. Ela fez entrevistas com atrizes como Jane Fonda, Shirley MacLaine e Maria Schneider que falam de suas posições como mulheres e profissionais. Interessante perceber que os depoimentos são muito parecidos com os do movimento #Meetoo, em que atrizes denunciaram assédio”, destaca.

Outro destaque internacional é “Audre Lorde, the Berlin Years 1984 to 1992”, de Dagmar Schultz, que mostra a vida da poetisa e renomada militante LGBT negra. Inédito no Brasil, o filme terá uma exibição na sexta, às 16h.

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"Le FHAR - Front Homosexuel DAction Révolutionnaire" (Foto: Divulgação)

A idealizadora diz que a mostra proporciona um recorte cinematográfico sobre a expressão feminina que quase não tem voz no cinema. “Todos sabemos que a grande maioria dos diretores são homens. Aqui no Brasil, por exemplo, o primeiro filme dirigido por uma mulher negra foi lançado em 1984 (‘Amor maldito’, de Adélia Sampaio, que tem sessão quinta, às 18h, seguida de homenagem à realizadora). E só agora surge um segundo, o ‘Café com canela’, para entrar em circuito”, aponta.

Além da exibição de filmes, “Século XXI: Mulheres, ação!” vai promover debates na Cinemateca do MAM sempre às 20h. “Chega de assédio”, “Maternidade: uma escolha”, “Lesbianidade, ação!” e “Protagonismo negra” são os temas abordados por 19 mulheres especialistas em suas áreas, como Amanda Kamancheck Lemos, diretora do documentário “Chega de fiu-fiu”; Edmeire Exaltação, cientista social e coordenadora da Casa das Pretas; e Kenia Maria, escritora e defensora dos Direitos das Mulheres Negras na ONU). No sábado, às 19h, a convidada francesa Nicole Fernández Ferrer, diretora do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir, fala de seu trabalho à frente do instituto e suas impressões sobre os filmes brasileiros vistos ao longo do evento.

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"Carole Roussopoulos, une femme à la câmera" (Foto: Divulgação)

O encerramento no domingo terá uma ocupação do entorno da Cinemateca, com aulas de yoga, massagem, venda de livros, mapas astrais, aulas marciais, piqueniques, danças e outras atividades. O coletivo de poetisas Slam das Minas faz uma batalha de poesia às 13h. O filme de encerramento é o “#Euvocêtodasnós”, de Ellen Paes e Rafael Figueiredo. “Nesse filme há um depoimento de uma adolescente que me emocionou muito porque é o que eu penso. Ela diz: ‘Até aqui, nós vivemos o conceito de mulher que é determinado pelos homens. Agora, está na hora de nós determinarmos qual é esse conceito de mulher que queremos viver’”, destaca Andrea.



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