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Cultura

Poetas e músicos experimentais trabalham juntos no Subcena, evento mensal em Botafogo

Jornal do Brasil ANDRÉ DUCHIADE, andre.duchiade@jb.com.br

O Subcena, em seus moldes atuais, começou um pouco por acaso. Em outubro de 2017, os editores e poetas Thadeu Santos e Vinicius Melo e o produtor cultural Bernardo Oliveira convidaram Ricardo Aleixo, poeta mineiro, para uma leitura de seu livro “Antiboi” (Ed. Crisálida, 2017) na Audio Rebel, em Botafogo. Na apresentação, Ricardo usava pedais e efeitos de distorção, que transmitiam eletricidade e distorção à sua voz. Thadeu diz que, contudo, “faltava algo”. O músico Benjão, da banda Do Amor, foi então chamado para agregar ruídos e adensar a performance. O resultado, que juntava barulho e récita, virou a marca do evento.

“Eu já tinha feito várias coisas relacionadas à poesia, mas eram sempre leituras, algo muito preso à ideia de sarau. Era esse o modelo que eu tinha na cabeça”, diz Thadeu. “Mas o sarau é um modelo um pouco enfadonho, pouco inventivo e lugar-comum. O Ricardo mostrou que há um campo de abertura muito grande e inexplorado por nós, que a poesia e a música experimental casam-se muito bem. Encontramos uma possibilidade para trabalhar o campo poético, a apresentação ao vivo, a performance e a musicalidade muito mais arriscado”.

Macaque in the trees
O músico Benjão e o poeta Ricardo Aleixo no primeiro Subcena (Foto: Divulgação)

O evento estabeleceu-se na Audio Rebel, onde, desde janeiro, acontece às 20h da primeira segunda-feira de cada mês. Passam por lá desde jovens ainda no começo da carreira, muitas vezes sem nenhum livro publicado, a poetas reconhecidos e publicados por editoras de peso, como o próprio Aleixo (que publicou “Pesado demais para a ventania” pela Todavia) e Angélica Freitas (de “Um útero é do tamanho de um punho”). Acompanham-nos, usualmente, os músicos da cena de música experimental e de improvisação da cidade, mas cada vez mais artistas de outros gêneros têm participado – em outubro, Fausto Fawcett, de “Kátia Flávia”, sobe ao palco com o poeta e crítico Ricardo Domeneck.

Hoje, Ricardo Chacal, o criador do CEP 20.000, mais tradicional encontro de poetas da cidade, e Barrão, artista visual e músico do trio Chelpa Ferro, são a atração principal. E, enquanto o evento anima seus realizadores, agrega colaboradores e estimula considerações sobre o que produz a colisão entre a poesia lida ao vivo e a improvisação sonora, ele enfrenta os mesmos problemas de quase todas as realizações culturais autônomas da cidade – falta de recursos, inconstância e desinteresse do público, dinheiro e tempo investidos do próprio bolso, sem previsão de retorno no horizonte. 

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Tatiana Nascimento, de Brasília, e Cibele Minder (Foto: Divulgação)

Produção de guerrilha, como de costume

Das nove sessões do Subcena, a única a lotar foi a de Angélica Freitas. Segundo Thadeu, cada encontro reúne, em média, 30 pagantes. O número não é inexpressivo, se considerado que eventos de poesia no Rio costumam ser gratuitos ou ter contribuição voluntária, mas é insuficiente para garantir ao menos autossustentabilidade. Como boa parte dos artistas é de fora da cidade, por vezes, isso significa bancar a passagem do próprio bolso. “Em abril, quando a Fabiana Faleiros veio de São Paulo, tive que pôr uns R$ 200”, diz Thadeu, que também cuida da editora kza1.

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Angélica Freitas e Juliana Perdigão (Foto: Divulgação)

Acostumado a realizações independentes (é um dos responsáveis pela Quintavant, sessão itinerante de música experimental), Bernardo Oliveira diz que o “principal desafio é o de sempre. Organizar as coisas, formar um público, pagar bem os artistas. Dificuldades mais do ponto de vista operacional do que de curadoria. No que diz respeito a esta, a depender da qualidade e da quantidade dos artistas com que trabalhamos, ainda temos muito tempo de vida”.

Thadeu compartilha o contentamento artístico. Ele diz que, “quando a poesia vai para a performance, ela ganha uma originalidade muito surpreendente. Os artistas da palavra têm uma afinidade de referências com os da música experimental. Quando se encontram, perdemos os parâmetros para saber de onde parte a música e de onde parte a poesia. É como se os dois tivessem se tornado uma coisa só, que é a poesia em uma experimentação com várias mídias, como a palavra, o som e o corpo”.

As sugestões dos encontros, que duram em média uma hora, vêm, quase sempre, da própria curadoria. De acordo com Thadeu, na maioria das sessões, há um ou dois ensaios, mas algumas não tiveram nem isso. “A improvisação é um valor que cultivamos. Temos um interesse pelo erro e pelo inesperado, que fazem bem à poesia. Procuramos criar as condições instáveis para que aconteçam”.

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Érica e Pinaud (Foto: Divulgação)

Maria Bogado, poeta que se apresentou em agosto ao lado de Lucas Pires e ajuda também na organização, diz que o evento acolhe expressões com pouco espaço. “Eu tenho um interesse antigo por som, como sempre achei estranho ler poesia sem refletir sobre o microfone ou a voz. Mas uma vez fiz uma apresentação muito ruidosa no CEP e me vaiaram horrores. No Subcena é um público que está em outro lugar, mais aberto”, conta.

O ruído, todavia, nem sempre é uma regra. Tatiana Nascimento, que se apresentou ao lado de Cibele Minder, fez uma apresentação intimista. “Acho precioso o silêncio ao redor, e a atmosfera do Rebel harmoniza-se perfeitamente a isso. Sou tímida e muitas vezes falo baixo como parte da performance, mas este é um modo de estar no mundo. O compartilhamento da palavra falada é um dos espaços mais potentes e preciosos da comunicação em arte, sobretudo para uma mulher lésbica negra como eu”.

Na apresentação principal de hoje, até mesmo as palavras não devem estar lá. Segundo Barrão, Chacal imita animais, em uma performance com o corpo, enquanto ele mesmo produz distorções e efeitos eletrônicos: “São temas bem curtos, de mais ou menos um minuto, e em cada um ele se passa por um bicho. Não é muito ruidoso e ele não vai recitar. Ele achou que deveria expressar a animalidade com os próprios gestos, e eu harmonizo os sons a isso”.

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Serviço

Subcena#9: André Capilé e BeatBassHighTech/Ricardo Chacal e Barrão - Audio Rebel (R. Visc. de Silva, 55 - Botafogo; Tel.: 3435-2692). Hoje, às 20h. R$ 20.



Tags: poesia Rio

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