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Irmãos Coen apostam em faroeste farofa

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Donos de um punhado de Oscar, de uma Palma de Ouro e de uma leva de troféus cinéfilos, conquistados por cults como “Onde os fracos não têm vez” (2007), “Fargo” (1996) e “Barton Fink” (1991), os irmãos Joel e Ethan Coen sempre entram em um festival com uma aura de “já ganharam”, coisa que não se fez valer agora em Veneza. Pelo menos não depois que o novo trabalho deles, o faroeste “The ballad of Buster Scruggs”, chegou ao fim. Embora arranque frouxas gargalhadas, esta releitura “farofa” do Velho Oeste - idealizada para a Netflix com um formato em episódios – fica bem aquém da fina ironia da dupla de realizadores. O objetivo aqui é mais explorar deixas de desmitificação das cartilhas clássicas do Oeste do que fazer um bangue-bangue à altura de “Bravura indômita”, lançado por eles em 2010. “O faroeste é um universo muito rico que comporta muitos gêneros em si, inclusive o musical, que a gente levou para este projeto em números de canto que dialogam com a tradição das aventuras de caubóis lendários das telas como Roy Rogers”, disse Joel Coen, que divide a narrativa em seis segmentos.

Macaque in the trees
The ballad of Buster Scruggs (Foto: Divulgação)

Tim Blake Nelson estrela o primeiro, na pele do ás do gatilho (e cantor) Buster Scruggs. Os demais alternam entre piadinhas fugazes e palavrórios sem muita reflexão. O melhor dos episódios é o que traz o cantor Tom Waits na pele de um garimpeiro. É, no todo, um filme divertido, fotografado com exuberância por Bruno Delbonnel, e nada mais que justifique sua presença em concurso – fora o nome dos diretores. O único concorrente de peso até agora é o mexicano “ROMA”, de Alfonso Cuarón, que recria tensões de classe média da década de 1970 a partir da história de uma família vista por uma faxineira e babá ameríndia. Também se impõe para prêmios o roteiro de “Non-fiction”, do francês Olivier Assayas. Sua trama, cheia de humor e angústia existencial, mostra os conflitos de um bamba do mercado editorial (Guillaume Canet) às voltas com a publicação digital.

Fora da briga pelo Leão dourado, o Brasil chegou forte em Veneza com “Deslembro”, ficção da aclamada documentarista Flavia Castro (“Diário de uma busca”), que tenta sua sorte na mostra competitiva Horizontes. Pautado pela delicadeza, expressa em plácidos enquadramentos feitos pela fotógrafa Heloísa Passos, este drama ligado à ditadura recria a volta ao país de quem foi exilado nos anos de chumbo. É o caso da militante política vivida (com empenho visceral) por Sara Antunes, que volta ao Rio após anos em Paris, no início da década de 1980. Mas sua filha adolescente, Joana (Jeanne Boudier), quer entender melhor as razões de a mãe ter partido. “Há um poema do Fernando Pessoa assim: ‘Deslembro incertamente, eu passado não sei quem o viveu, se eu mesmo fui está confusamente deslembrando...’ Pensei em como uma menina de 14, 15 anos ‘lembra’, como se constrói a memória, independentemente de ditadura ou não”, disse Flavia ao JB no anúncio de seleção para Veneza. “A questão é como se convive e se ‘organiza’ uma história”.

Amanhã tem mais cinema brasileiro entre as gôndolas: “Domingo”, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, leva uma lavação de roupa suja em família para a seção Venice Days. O festival segue até o dia 8. (R.F.)



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