Um Amarcord na gravidade do México

É firme e fiel o namoro de Veneza com o diretor Alfonso Cuarón: foi no Lido que o mexicano ganhou um carimbo de autor, em 2001, ao levar a Itália às lágrimas com “E sua mãe também”; e foi lá também que Hollywood rendeu-se a ele, ao sentir vertigem na projeção de “Gravidade” na abertura do festival italiano, em 2013. Agora, com “Roma”, seu novo filme (melhor seria chama-lo de experimento, por seu inusitado diálogo com o neorrealismo, com a memória e com a fotografia em preto & branco), a paixão de Veneza pelo cineasta se confirma uma vez mais: um par de ovações coroou o projeto. Com a grife Netflix, o longa de 135 minutos foi ovacionado ao fim de sua projeção. Mais uma salva de aplausos foi puxada quando Cuarón entrou na sala de coletivas.

“Eu tentei apenas ser fiel ao fluxo do tempo”, disse o cineasta, coroado com o Oscar de melhor direção pelo já citado “Gravidade”, e já cotado para estatuetas com o novo longa.

Macaque in the trees
Yalitza Aparicio é a empregada doméstica ameríndia que guia a narrativa de Roma (Foto: Divulgação)

Com base em experiências pessoais, a partir da história real de sua babá, Cuarón recria em “Roma” o dia a dia de uma família mexicana de classe média, no início dos anos 1970, pelos olhos da empregada deles, Cleo (Yalitza Aparicio), que tem origem indígena. Pautado pelo memorialismo, este enredo resulta numa espécie de “Amarcord” do cineasta, pessoal e encantador como o de Fellini. A sequência de uma manifestação armada é de causar taquicardia, assim como seus delicados diálogos sobre perda, decepção e perseverança.

Durante a coletiva do filme, Cuarón não foi poupado de uma pergunta acerca do impacto da Netflix sobre o audiovisual: desde 2017, quando o Festival de Cannes questionou a postura do serviço de streaming de não levar seus longas ao circuito, um debate sobre janelas de projeção acirrou-se. Cuarón respondeu com elegância:

“É importante que a existência de um filme não se perca com o tempo. Queria fazer uma pergunta pra vocês: quando foi que vocês viram um filme de Robert Bresson ou de Yasujiro Ozu numa sala de cinema pela última vez? E quando foi que viram um filme de um mestre do porte deles em outro suporte, doméstico?”, questionou Cuarón, garantindo que “Roma” será exibido em salas comerciais e não só na Netflix. “É importante avaliarmos bem o destino dado a cada filme, a partir de suas especificidades. Este é um filme em preto & branco, falado em espanhol, calcado no drama e sem ferramentas de cinema de gênero. Que espaço será que ele teria em circuito? O importante dessa questão é defender que haja opções de como os filmes sejam vistos, de acordo com o tamanho deles”.

Hoje, “Deslembro”, ficção da aclamada documentarista Flavia Castro (“Diário de uma busca”) vai tentar a sorte na mostra competitiva Horizontes, revendo episódios ligados à anistia política com o fim da ditadura. Na trama, uma adolescente brasileira que cresceu em Paris se vê as voltas com a redemocratização da terra de seus pais no início dos anos 1980. “Há um poema do Fernando Pessoa assim: ‘deslembro incertamente, eu passado não sei quem o viveu, se eu mesmo fui está confusamente deslembrando...’. Pensei em como uma menina de 14 15 anos ‘lembra’, como se constrói a memória, independentemente de ditadura ou não”, disse Flavia ao JB no anúncio de seleção para Veneza. “A questão é como se convive e se "organiza" uma história”. (R.F.)