Ligações perigosas versão 2018

Indicado ao Leão de Ouro, The favourite, dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos, arrebata Veneza e se impõe para o Oscar

Há cerca de dois meses, quando fez sua primeira triagem dos possíveis candidatos ao Oscar 2019, o site americano “Awards Daily”, referência mundial em premiações de cinema, elencou “The favourite”, do grego Yorgos Lanthimos, como um potencial destaque na briga pela estatueta de Hollywood. Editora desse portal eletrônico, a crítica Sasha Stone apostou que o Festival de Veneza estava seco por este picante e irônico ensaio sobre desejos e vaidades na corte da Inglaterra do século XVIII. Essa segunda parte da afirmação do site já se confirmou, sublinhada por quilos de aplausos conquistados, no Lido, pelo novo longa-metragem do realizador de “O Lagosta” (2015) e ‘O sacrifício do cervo sagrado” (2017). E, a julgar pela crítica local, fortes são as chances de as previsões de Sasha acerca da próxima festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas Hollywoodianas se concretizarem: Lanthimos fez seu melhor trabalho. E seu trio de protagonistas tem tudo para deixar Veneza com o Prêmio de Interpretação Feminina: as inglesas Olivia Colman e Rachel Weisz e a americana Emma Stone.

Macaque in the trees
Emma Stone é uma aia que cai nos braços da Rainha em The Favourite (Foto: Divulgação)

“Como eu nunca tinha feito um filme de época, a chance de contar uma história sobre a Corte inglesa, filmando em Londres, soou muito atraente. É um enredo que me permite retratar toda a complexidade do universo feminino”, diz Lanthimos em resposta ao JB. “Filmei em locações reais, onde o trabalho era extrair o peso do passado, o excesso do simbolismo da memória”.

Há um clima de “Ligações perigosas” (1988), de Stephen Frears, em “The favourite”. Assim como há um toque de “Amadeus” (1984), de Milos Forman, nesta elegante produção que põe Elton John pra tocar onde menos se espera – e funciona. Seu roteiro narra uma série de intrigas nas quais a adoentada Rainha Anne (Olivia Colman, hilária), no auge de uma crise de gota, envolve-se ao mexer com o coração e a vaidade de duas mulheres. A nobre Lady Sarah (Rachel Weisz, numa atuação memorável) e a aia Abigail (Emma Stone) vão dividir a cama da monarca, bagunçando a Corte e os jogos de Poder numa nação em conflito. Há uma relação lésbica entre elas retratada sem qualquer medo de tabus históricos.

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Olivia Colman é a Rainha da Inglaterra do século XVIII e Rachel Weisz vive sua súdita mais querida em The Favourite, de Yorgos Lanthimos (Foto: Divulgação)

“Eu era a única americana no elenco central do filme e me deram um papel em que as falas são raras. E isso foi ótimo pra mim”, disse Emma a Veneza, de onde saiu premiada em 2016 por “La La Land – Cantando estações”. “É muito bom defender uma figura que obriga a plateia a prestar atenção no que se passa para além do que se diz”.

Fora da peleja pelo Leão de Ouro, Veneza caiu nas garras (e nas graças) de nuestros hermanos argentinos, seduzida pelos deliciosos diálogos de “Mi obra maestra”, uma comédia dirigida por Gastón Duprat e produzida por Mariano Cohn, mesma dupla por trás do consagrado longa “O cidadão ilustre” (2016). Antes, o foco dele era o prestígio na Literatura. Agora, estudam o que existe de vaidade no universo das artes plásticas. Sua trama se calça no desconforto e no constrangimento. Essas são as palavras que regem a longeva parceria entre o marchand Arturo (Guillermo Francella), dono de uma galeria cheia de conceitos estéticos duvidosos, e o pintor Renzo (Luis Brandoni), cujas pinceladas são carregadas de preguiça crônica e de um refinado mau humor. Lançada em Buenos Aires no dia 16, a produção virou uma sensação no circuito de salas exibidoras da Argentina.

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Rachel Weisz é uma súbidta da Rainha Anne da Inglaterra que dividirá o amor da monarca com uma aia em The Favourite (Foto: Divulgação)

“Nossos filmes carregam uma identidade no cuidado que a gente tem de alternar situações atrapalhadas com problemas concretos da sociedade. Por isso, em geral, nós mesmo fazemos a concepção visual, sobretudo o Mariano Cohn, que tem mais virtudes técnicas. Mas, neste novo trabalho, a presença de um diretor de fotografia era importante para nos garantir uma dose a mais de distanciamento para um enredo sobre diferenças de interpretação”, disse Duprat ao JB. “Essa visita ao universo da pintura é uma forma de levar para um território plástico o debate sobre o que é ser autoral.

Nesta sexta, “o” destaque de Veneza está fora de concurso, na première do drama musical “Nasce uma estrela”, dirigido pelo galã Bradley Cooper com Lady Gaga. É um remake do hit de Hollywood de 1937 com Janet Gaynor e Frederic March.



Olivia Colman é a Rainha da Inglaterra do século XVIII e Rachel Weisz vive sua súdita mais querida em The Favourite, de Yorgos Lanthimos
Rachel Weisz é uma súbidta da Rainha Anne da Inglaterra que dividirá o amor da monarca com uma aia em The Favourite
Emma Stone é uma aia que cai nos braços da Rainha em The Favourite