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'Ai que saudades que tenho da aurora!': confira crítica da peça 'O Frenetic Dancing Days'

Jornal do Brasil CLAUDIA CHAVES*, Especial para o JB

Da mesma maneira que a infância era outrora risonha e franca, a noite do Rio também o foi. Existem fatos, lugares, pessoas que, como a bolsa Chanel, são atemporais, não caem de moda e continuam a existir com força na memória, no coração e, sobretudo, nas conversas. Em 1976, no segundo andar de um shopping em um bairro totalmente residencial, com curtíssima duração de quatro meses, aconteceu o fenômeno/ a boate, chamada no termo então a nascer, The Frenetic Dancing Days Discotheque.

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O musical está em cartaz no Teatro Bradesco, na Barra (Foto: Leo Aversa/Divulgação)

Com enorme coragem e competência que Nelson Motta, o principal idealizador, juntamente com Patrícia Andrade roteiriza a gênese e os acontecimentos que fizeram dele mesmo, Nelsinho, e seus sócios Scarlet Moon (jornalista), Leonardo Netto(ator), Dom Pepe (DJ) e Djalma Limongi (produtor) os verdadeiros precursores de um novo estilo de vida. Dança, luz, alegria, gente famosa, gente sem label, direita, esquerda, bebidas, substituem a cena musical da noite com seus gêneros: um cantinho, um violão, música de protesto ou sexo, drogas e rock and roll.

Sob a criativa e competente direção Deborah Colker, 16 atores e sete bailarinos realizam com muito talento aquilo que um musical exige: personagens definidos, canto de primeira linha e números de dança com coreografias e atuações jamais vistas em palcos brasileiros. Para afirmar a história de uma discoteca, a opção foi desenhar números que brinquem com a forma de dançar na época, mas transformem o palco em um espetáculo de ballet digno dos grandes conjuntos pelo impressionante entrosamento do grupo.

Os personagens principais são desenvolvidos sem caricaturas e sem estereotipagem. Nelsinho/Bruno Fraga é o empreendedor cultural ( para utilizar o termo contemporâneo) inquieto na arte, no trabalho e na vida afetiva; Scarlet/Larissa Venturini (com excelente caracterização física) é a mulher livre, libertária, de esquerda; Leo/Franco Kuster é o ator, duplo de Nelsinho (sem exageros na homossexualidade); Djalma/Cadu Fávero é o produtor comunista , o belo lado racional e corajoso, e Dom Pepe/Andre Ramiro é o talentoso DJ, a carioquice em pessoa, swing sangue bom.

O cenário/direção de arte de Gringo Cardia e a iluminação de Maneco Quinderé aumentam, ao trazerem luz e mais luz, a criatividade dos figurinos de Fernando Cozendey e o visagismo de Max Weber. Nada é realista e muito longe de ser uma documentação dos anos 70’s, todos os elementos da linguagem teatral contribuem para fazer aquilo que a discoteca esbanjava: clima, alegria, gente talentosa, um enorme diferencial de outros locais.

É uma mistura de ficção e realidade, evidenciada na personagem de D. Daisy (invenção) e a formação do grupo das Frenéticas que cria o diálogo e a interação entre plateia e palco. Além da impecável trilha sonora, de unânimes sucessos, o que se vê é muito mais que a história de uma discoteca, ou um recorte de uma época. É Djalma, o esperançoso comunista que aposta no talento, é Nelsinho, o verdadeiro criador que vai atrás de realizar o sonho, é Madalena (Ariane Souza), a cozinheira sócia que entende perfeitamente bem as armadilhas do capitalismo, é Stella Miranda como Daisy, são os bailarinos que nos fazem esquecer que existe saudade. Afinal, em duas horas a gente só lembra que viemos ao mundo para sermos felizes.

Salve os Frenetic Dancing Days!

*Especial para o JB. Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras



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