Luedji Luna apresenta o disco de estreia "Um corpo no mundo" no Circo hoje

Luedji Luna sobe ao palco do Circo Voador pela primeira vez nesta sexta, em mais um passo significativo de uma carreira musical que começou só quando ela já era adulta. Em 2012, aos 25 anos, formada em direito, viu-se infeliz. Sempre adorara cantar, mas nunca havia pensado em fazer disso uma profissão. Depois de se matricular em uma aula de canto, finalmente resolveu investir na vida artística. O motivo para a demora, ela diz, se relaciona à cor de sua pele e a seu gênero:

“Nessa sociedade racista e opressora em que vivemos, aprendemos que sonhar não é possível para uma mulher negra. Estamos interessados só em sobreviver, sem pensar naquilo que nos fará felizes. O sonho é para os outros. Para nós, sobram as preocupações com as contas a pagar”, ela afirma.

A aposta no canto e na composição demorou a vir, mas recompensou. A baiana desenvolve hoje uma promissora carreira, como mais uma voz de um Brasil que exige representatividade e pluralidade em todos os âmbitos, incluindo a arte. Lançado ano passado, seu disco de estreia, “Um corpo no mundo”, aglomera elogios da crítica e do público, tendo alguns de seus vídeos assistidos milhões de vezes no Youtube.

Delicada, suave, amena e amorosa foram adjetivos usados para descrever sua música. Palavras em sintonia com a intenção da artista, que, afirma, canta movida por uma ambição curativa.

“Ter seguido o caminho de cantora curou, antes de tudo, a mim. Eu tinha ranço desse projeto, não o via como se fosse possível. Entender que posso comunicar a minha humanidade, levar adiante o meu sonho, cuidou de mim mesma. Isso reverbera para outras pessoas, que também se sentem acalentadas”, descreve.

Percalços estiveram em seu caminho, entretanto. Aos 27 anos, mudou-se para São Paulo, sozinha e com poucos contatos na cidade, por entender que lá estava a fatia mais mercado fonográfico nacional. A solidão pesou, agravada, mais uma vez, em razão do preconceito.

“O racismo opera de modo diferente em cada território. Fora da África, Salvador é uma das cidades com maior percentual de negros do mundo, mas lá não existe mobilidade econômica e social. Em São Paulo, por outro lado, encontrei uma população embranquecida, resultado de um processo histórico do estado brasileiro. Por outro lado, havia mobilidade social e possibilidades para viver como artista”.

Estas oportunidades incluíram encontros com a maioria dos artistas que participaram da gravação do disco, que ela conheceu na cidade. Juntos, formam um grande seleção pluriétnica. Além do sueco Sebastian Notini, que atuou como produtor (e, no currículo, tem também a produção do álbum de Tiganá Santana, de estética próxima a Luedji), tomaram parte o queniano Kato Change (guitarra), o cubano Aniel Sommellian (baixo), o congolês François Muleka (violão) e o soteropolitano Rudson Daniel (percussão).

Embora tenham feito o CD juntos, os músicos jamais se reuniram em uma apresentação ao vivo, até o show de hoje no Circo. Participam ainda Estefani de Souza (trompete) e Mayara Almeida (saxofone). O show é composto pela íntegra do disco, sem acréscimos, apresentado na ordem da gravação. Um destaque é a canção-título “Um corpo no mundo”, na qual a cantora faz uma declaração de princípios. “Eu sou um corpo/ Um ser/ Um corpo só/ Tem cor, tem corte/ E a história do meu lugar”/ Eu sou a minha própria embarcação/ Sou minha própria sorte”.

Serviço: Luedji Luna + Bixiga 70 (abertura). Circo Voador (Rua dos Arcos s/nº – Lapa; Tel.: 2533-0354).1° Lote R$ 40 (com 1kg de alimento não perecível), R$ 80 inteira. 2° Lote: R$ 50 (com 1kg de alimento), R$ 100 (inteira). Hoje, às 22h.