Imigração alegra futebol suíço

O álbum de figurinhas da Copa é ótimo para descobrirmos a cara de uma seleção. Conforme as páginas vão sendo completadas, percebemos obviedades: que a da Dinamarca é loura; a do Japão, de olhos puxados; e a da Nigéria, negra. Algumas, no entanto, reservam surpresas. A Suíça, por exemplo, vem ficando com um jeitinho de Brasil: misturada. A equipe, famosa por sua forte defesa, está mais colorida. A explicação é simples. Um quarto da população do país é formada por imigrantes, que pouco a pouco foram ganhando espaço no selecionado local. 

Nos anos 90, com as guerras nos Balcãs, muitos habitantes da região buscaram refúgio na Suíça. Atualmente, cidadãos de ex-repúblicas iugoslavas, como Macedônia e Kosovo, são o maior grupo de imigrantes no país, famoso por sua neutralidade e casa das Nações Unidas na Europa. Outra grande leva é proveniente da Albânia, nação mais pobre do continente europeu. O volante Xhaka, por exemplo, é da Basileia, mas seus pais são albaneses.

 O futebol da Iugoslávia era comparado no passado ao brasileiro. Exageros à parte, a onda migratória dos Balcãs se refletiu em campo. A Suíça não abandonou a força, mas atualmente tem postura muito mais ofensiva e de toque de bola. Além dos rostos, os sobrenomes também estão mudados. Um dos destaques do time é  o meia Shaqiri, que nasceu em Gjilan, no Kosovo - país que também é origem do volante Behrami, que é natural de Kosovska Mitrovica. Já o meia Dzemaili nasceu em Tetovo, na Macedônia. 

A imigração para a Suíça não é apenas europeia. Vários jogadores da seleção têm origem africana. De Camarões, vem o ponta Embolo, o goleiro Mvogo e o zagueiro Moubandje. Outro zagueiro, Djourou, é da Costa do Marfim. Já o volante Gelson Fernandes, de Cabo Verde, reflete outra característica do país europeu,  uma verdadeira Torre de Babel, com quatro idiomas ofi ciais, alemão, italiano, francês e o desconhecido romanche, falado por pequena parcela da população. O caboverdiano, que se mudou para a Suíça quando tinha cinco anos, é fluente em alemão, italiano, francês, espanhol e inglês - além do português. Só não sabe o romanche, pois aí seria pedir demais. 

No entanto, nos últimos anos, assim como em vários lugares da Europa, o sentimento anti-imigratório e xenófobo vem crescendo. Em 2014, por meio de um referendo, a população da Suíça decidiu que era preciso estabelecer cotas para a imigração - mas na prática o legislativo apenas definiu regras um pouco mais rígidas para os estrangeiros entrarem no mercado de trabalho. Recentemente, o Partido Popular Suíço, principal legenda local, propôs a realização de um novo plebiscito para conter a imigração.

 Apesar dos contratempos, nos gramados a imigração continua a ser celebrada a cada gol marcado pelos suíços, sejam eles brancos ou negros. Ao todo, dos 23 convocados, apenas oito têm origem puramente suíça. Cinco nasceram na África e dois são filhos de africanos, um tem origem espanhola-chilena e sete são naturais ou descendentes de países dos Balcãs. Como disse certa vez o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro: “mestiço é que é bom”.