Marin: sob pressão, dirigente evita holofotes em plena Copa das Confederações 

Com o início da Copa das Confederações neste sábado (15), o presidente da CBF, José Maria Marin, que nos últimos tempos tem evitado aparições públicas por ter seu nome envolvido em diversas polêmicas, como a participação na morte do jornalista Vladimir Herzog na ditadura militar, voltará aos holofotes. Como homem número um da entidade máxima do futebol brasileiro, Marin irá receber autoridades estrangeiras em nome do Brasil, mesmo com campanhas, com apoio da sociedade civil, que pedem sua saída da CBF.

Marin já tinha virado polêmica antes de assumir a presidência da entidade, quando foi flagrado furtando uma medalha que seria entregue a um jogador do Corinthians, então campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior. Dois meses depois, no entanto, quando assumiu o cargo, em março de 2012, Marin teve sua imagem pessoal abalada constantemente.

A principal polêmica é em relação ao seu envolvimento na morte do ex-jornalista da TV Cultura, Vladimir Herzog. Em vídeos que hoje estão disponíveis no Youtube, Marin, então deputado estadual de São Paulo, discursa para os vereadores daquele estado e pede providências contra a emissora, que segundo ele estava sendo comandada por comunistas. Dias depois, Herzog foi capturado, torturado e morto nos porões do regime militar.

Convocado pela Comissão Municipal da Verdade de São Paulo para dar esclarecimentos sobre o seu envolvimento na morte de Herzog, na última terça-feira (11), Marin se negou a comparecer, alegou que sua agenda estava cheia e ainda disse que “não tem nada a fazer na comissão”. Um dia antes, no entanto, o presidente da CBF foi à Câmara Municipal, local onde são dados os depoimentos da comissão, para participar de homenagem a Joseph Blatter, presidente da FIFA.

Para o filho de Vladimir Herzog, o engenheiro Ivo Herzog, o não comparecimento à Comissão da Verdade paulistana esclarece como “o discurso de Marin é uma sequência de mentiras”.

“Mostra a falta de caráter dele, pois um dia antes ele pôde comparecer numa homenagem que é de promoção da causa própria. Ele deve explicações e esses são discursos que ele nunca comentou e não há desculpas, pois é tudo muito detalhado, centenas de elogios ao delegado Sérgio Fleury. A ausência na comissão é a reafirmação do caráter de Marin e acho uma grande vergonha para nós como nação”, critica Ivo Herzog.

Já que a Comissão Nacional da Verdade tem mais poderes que a paulistana, o filho do ex-jornalista diz acreditar que ela chame o presidente da CBF para depor.

Já a deputada federal Jandira Feghali (PC do B/RJ) afirma que Marin perdeu uma oportunidade para esclarecer sua ligação com a ditadura: “Ele pode não ter ido agora, mas em algum momento ele vai ter que ir, e se não tem nada para esconder que vá lá e conte a versão dele. Marin está tendo o privilégio de exercer o direito de resposta, que é obrigação do estado democrático de direito, e está se negando a exercê-lo”.

Mancha curricular

Com o início da Copa das Confederações, Marin será uma espécie de embaixador do Brasil, ao receber diversas autoridades estrangeiras em nome dos brasileiros. Para Jandira, a cena será uma “vergonha para o Brasil”.

“Termos como anfitrião brasileiro, como embaixador do Brasil, em um mega evento internacional, alguém que se nega a depor numa Comissão da Verdade porque é acusado de colaborar com a ditadura é uma mancha curricular para o país”, afirma a deputada.

Fora Marin

Além do seu passado obscuro, desde que assumiu o cargo de presidente da entidade máxima do futebol brasileiro Marin tem sido alvo de polêmicas que mancham a sua gestão à frente da CBF.

Um vídeo divulgado no YouTube por um usuário identificado como “Justic Just” acusa Marin de preparar um jantar para agradar dirigentes antes de uma reunião na entidade. O áudio não deixa claro em qual período foi feita a gravação, mas o perfil diz que a tentativa de lobby foi anterior à eleição de Marco Polo Del Nero (presidente da Federação Paulista de Futebol) ao cargo de vice-presidente da entidade máxima do futebol brasileiro, que acabou eleito com grande aprovação entre os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro.

Sua má gestão na CBF levou os deputados federais Romário (PSB), também presidente da Comissão de Turismo e Desportos da Câmara; a deputada Jandira, também presidente da Comissão de Cultura; e o filho do ex-jornalista Vladimir Herzog, Ivo, a entregarem uma petição com mais de 55 mil assinaturas à entidade e às 27 federações pedindo a renúncia do cargo.

Mesmo com a alta adesão à petição, inclusive da sociedade civil, a deputada Jandira reconhece que o “barulho foi pouco”.

“Falta mais barulho. Parece que já foi feito o suficiente, mas não foi. Ou os ouvidos das pessoas estão loucos ou o barulho foi pequeno. Precisamos dar uma repercussão maior, discutir quais tipos de denúncia, que tipos de instituições envolver para essa campanha ir adiante”, ressalta Jandira.

Já Ivo Herzog afirma que “o silêncio dos clubes de futebol e das federações estaduais mostram a conivência em torno de Marin”.

*Do Programa de Estágio do Jornal do Brasil