Felipão adota 'meio-termo' entre liberdade de 2006 e clausura de 2010

Após duas Copas do Mundo com quedas nas quartas de final, a Seleção Brasileira parece ter aprendido com os erros cometidos nas preparações para os Mundiais de 2006 e 2010. Durante os dias que antecedem a Copa das Confederações é possível ver o técnico Luiz Felipe Scolari adotar uma postura que fica no meio-termo entre a liberdade exagerada do Mundial de 2006 e a clausura excessiva feita por Dunga na Copa do Mundo seguinte.

Por meio-termo, explica-se: a Seleção Brasileira tem preferido a privacidade do que a presença constante do público nos treinamentos. Por outro lado, Felipão tem feito bem menos treinos fechados para imprensa e conta com uma relação mais saudável com os jornalistas do que Dunga. Essa postura se aplica também aos jogadores, que se mostram bem mais tranquilos nessa relação com a imprensa, diferentemente do que aconteceu em 2010.

Os problemas de 2006, porém, parecem ter sido a maior lição tirada pela Seleção do que não se deve fazer. Durante a preparação para aquela competição, realizada em Weggis, na Suíça, os treinos da equipe verde e amarela contavam com milhares de torcedores nas arquibancadas e centenas de jornalistas na beira do gramado. Houve até invasão de torcedores ao gramado, como na cena clássica em que uma loira atravessa o campo e pula em cima de Ronaldinho.

Passados alguns anos, atletas daquela equipe criticaram publicamente a postura adotada naquele Mundial. Tido como maior astro daquela Seleção, o atacante Ronaldo foi um dos que reclamou fortemente do que aconteceu na preparação em 2006.

?"Tínhamos treinos de dia e de tarde com 15 mil pessoas gritando no nosso ouvido, uma festa. Tinha que passar em um corredor de torcedor, de imprensa. Não tivemos proteção. Continuamos tentando manter o nosso foco na Copa do Mundo. Tendo uma estrutura que te proteja, na hora do jogo o jogador está mais tranqüilo. Isso não aconteceu, mas também não jogamos lá essas coisas. Nós assumimos nossa culpa. Mas é fácil todo mundo falar que a culpa foi só dos jogadores. Não vi ninguém falar que a preparação foi uma droga. Foi um circo", disse Ronaldo, em uma entrevista ao Sportv, em 2008.

Apontado como o grande destaque do Brasil naquele Mundial, Zé Roberto foi além e chegou a criticar alguns colegas de equipe em entrevista à TV Globo neste ano. "A preparação foi o que mais nos prejudicou na parte do foco. Faltou um pouco mais o pessoal da comissão técnica ser mais rígido, cobrar mais, exigir mais. Os jogadores que chegaram acima do peso foram disputar a Copa do Mundo como se fosse qualquer competição e acabamos sendo eliminados pela França novamente".

Os erros cometidos em 2006 já haviam sido tidos como exemplo negativo para Dunga. Após entrar na Seleção com uma postura maleável, o treinador com o passar dos anos foi optando por adotar uma postura mais conservadora e entrou em conflito com a imprensa.

Com constantes treinos fechados, antes e durante a competição, além de ser acusado de jogar aquele grupo contra a mídia, ele foi ganhando críticos ferrenhos e mesmo com títulos da Copa América, em 2007, e da Copa das Confederações, em 2009, não foi perdoado após a eliminação para a Holanda na Copa de 2010 e acabou retirado da Seleção.

"É um contexto todo, mas claro que (o destempero fora de campo) influencia. Se sou o presidente da CBF e invado o campo para bater no juiz, é claro que desestabilizo também a comissão técnica e os jogadores", chegou a declarar o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em entrevista ao SporTV na época da demissão.

Consciente dos dois modelos, Scolari tenta corrigir todas as falhas de seus antecessores. Com relação aos problemas de 2006, evita que o grupo perca o foco mantendo treinos sem público, além de ter optado por não trazer "medalhões" que estão sem jogar com frequência, como é o caso do meia Kaká.

Sobre as falhas de 2010, Scolari tenta trazer principalmente os críticas para o seu lado com uma postura mais maleável, uma espécie de "paz e amor". Exemplo disso, pôde ser visto no último treino secreto que realizou antes do jogo amistoso contra a França. Mesmo sabendo que a imprensa tinha achado um jeito de burlar o treino fechado e descobrir com um morador a escalação que Scolari pôs em campo, o treinador não se mostrou irritado por ter tido seu segredo revelado e até brincou com os jornalistas.

Um jornalista chegou a dizer que alguns pagaram R$ 20 para o morador divulgar a equipe. Ao invés de se irritar com a atitude da imprensa, Felipão preferiu adotar o bom-humor. "Esse aí cobrou barato. A gente tinha feito um acerto com os moradores que era R$ 100 para depois dividir. Ele falou do Marcelo, por R$ 20 ele deu a informação certa. Mas treinamos mais uma variação da equipe. Se tivessem pagado R$ 50 saberiam mais", brincou Scolari, em atitude bastante diferente do que se via com Dunga.