Salvar a Uerj não é uma opção, é um dever

Ontem compartilhei em minha rede social um artigo que me chamou atenção e veio ao encontro de alguns pensamentos que me perseguem há algum tempo. O artigo fazia menção ao fenômeno da judicialização da política no Brasil, e de certa forma, essa é uma dinâmica mundo afora atualmente.

O artigo escrito pelo cientista político e professor da FGV e da PUC/SP, Francisco Fonseca, faz alusão a uma tentativa de manutenção de privilégios por parte da elite, de forma a manter a tradição da distinção social, da meritocracia individualista, da manutenção da ordem e na manutenção de uma divisão social do trabalho completamente estática, entre outras.

Neste cenário adverso, vemos o estado do Rio de Janeiro  assistir à aceleração do processo de deterioração de um dos seus maiores centros de excelência acadêmica, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a nossa querida e cinza Uerj.

Só uma sociedade saudosa da estrutura escravagista, que manifesta sua inconsciente nostalgia, em manequins negros pendurados de ponta a cabeça, em moleques magros e famintos amarrados em postes e em corpos femininos negros arrastados em suplício "post mortem", poderia produzir gestores que penalizam uma instituição que foi pioneira na implantação do sistema de reserva de vagas para alunos negros(as).

Só uma sociedade onde o veneno do colonialismo, da distinção social, do privilégio, do patriarcado e da supremacia branca, pode se incomodar tanto com a presença da diversidade ao lado dos seus filhos e filhas e criar mecanismos ou apoiar tais mecanismos, que dificultam a permanência e até a inserção do diverso neste espaço tão importante.

Só uma sociedade muito enferma não percebe que seu próprio futuro definha e se perde sem a diversidade, sem os diversos pontos de vista, sem o tempero dos diferentes olhares sobre esta mesma sociedade.

Perdemos todos com este quadro nefasto. Perdemos professores(as) pesquisadores(as) experientes e de alta performance, futuros profissionais de excelência e contribuições ímpares ao crescimento e avanço da sociedade brasileira e humana.

Salvar a Uerj não é uma opção, é um dever dos gestores públicos e de toda sociedade. Ver uma entidade como esta depauperada, seus funcionários aviltados de todas as maneiras e seus alunos(as) usurpados no direito à educação pública e de qualidade, não é obra do acaso, é criminoso.

*Colunista, Consultora na Ong Asplande e Membro da Rede de Instituições do Borel