O olhar do favelado sobre as eleições

Quando ouvimos falar dos favelados e as eleições, vemos geralmente matérias ligadas ao impedimento do morador de votar, por via de opressão do tráfico ou milícia, ouvimos falar das bocas de urnas irregulares, ou até mesmo de voto de cabresto na favela. Porém, nunca nos é perguntado sobre o que achamos das eleições e qual a visão que temos do momento presente. No Rio de janeiro vemos o 2º turno apresentado pelas candidaturas dos dois Marcelos serem problematizada e a voz da favela necessita ser escutada. 

Fiz uma breve sondagem a amigos que são lideranças de suas comunidades para tentar entender como que a voz do favelado ecoa nesse período de ‘festa ou enterro’ da democracia. 

Aika Cortez é rapper, conselheira de Juventude do Estado e estudante de produção cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF). Moradora da favela Jardim Catarina, Aika afirma a importância desse processo político na vida dos jovens.

“Se a política não interferisse na vida do jovem, eu talvez não conseguiria estar e ver tantos jovens como eu na universidade, por exemplo, através das políticas públicas entre outras coisas. Porém, os serviços públicos prestados são de péssima qualidade, o transporte público um caos dependendo de onde você mora, a guerra do estado contra a favela e os pobres, são infinitas as interferências... Eu sou a favor da juventude ocupar esses espaços e dominar tudo, sou a favor de adotar práticas alternativas também. “

Aika se absteve de participar do processo eleitoral. “Não votar, eu acho sim que seja uma forma de manifesto, até porque depois desse golpe de pra que serviu o meu título? A presidenta que eu elegi foi tirada do poder sem justificativa plausível, eu sinceramente nem sei mais se votar ou não faz diferença, mas sei que que o voto e a política partidária interfere muito no cotidiano do jovem”

Bati um papo também com Érica Portilho, cria da Mangueira, formada em belas artes e design, pós graduada em gestão de projetos e gestão cultural. Para ela só é possível compreender o cenário eleitoral com um olhar extremamente crítico. “A favela sempre esteve à margem dos planos de gestão das cidades e isso infelizmente ainda não mudou. Um mês antes das eleições muitas obras chegam às favelas, porém elas são feitas de qualquer maneira com material de segunda apenas para angariar votos”. 

Kaka afirma que “existe ainda muita alienação política entre nós favelados, porém com as abertura das portas das universidades com a politica de cotas raciais e sociais, muitos tiveram acesso a construção do pensamento crítico e isso nos fez mudar a forma de ver o Estado. Conhecemos nosso lugar como povo, que exerce soberania, porém ainda temos medo de exercê-la. A cidade é nossa, precisamos nos compreender como um CEO dela e colocar na gestão um administrador competente que compreenda a laicidade do estado e a política pública como uma construção igualitária aos diversos atores sociais incluído nós favelados. 

Já Cadu Barcelos, cineasta, produtor e morador da Maré, parte do principio que nós vivemos em uma baixa na representatividade politica no país e que “não só o Brasil, não só o Rio, mas o mundo, está virando a direita na sua trajetória politica.

“Para não dizer que nunca, a favela quase nunca teve representações politicas que brigassem e levantassem suas pautas especificas, hoje sofre um degrau a cima de todos. A favela só era e é vista como pauta quanto a pauta da cidade acaba passando pela pauta da favela. E quando isso acontece? Quando a violência que acontece dentro da favela acaba afetando outras partes e camadas da cidade.  Partindo desse pressuposto , nos votamos por "redução de danos político" afirmou Cadu. 

E continua “então, eu como favelado, analiso essa briga politica atual como a briga de uma ideologia religioso capital, por que não da pra reduzir a ideia de governo de um [Marcelo] só a religião, penso que ele também ira governar para o capital, para os empresários, talvez menos agressivo do q o PMDB vinha fazendo mas ainda sim acho que a trajetória será próxima a isso. Versus uma tentativa de mudança na trajetória politica da cidade [com o outro Marcelo], que ainda não tem peso politico partidário, PSOL é um partido jovem e ainda sem muita força de barganha politica e acha que se faz um governo sem dialogo com seus antagonistas”

Na política eleitoral, precisamos de políticos que revejam seus conceitos de programas e plataformas de governo. Não dá para achar que ir na favela e fazer campanha é possibilitar a transformação do nosso território. Queremos ser ouvidos e atendidos. Nossas demandas são urgentes. A cidade também é nossa. É do pobre, do preto e do favelado!

 * Walmyr Júnior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor, membro do MNU e do Coletivo Enegrecer. Atua como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.