A tristeza de uma eleição na desigualdade de uma cidade

Ainda não me preocupei e nem me atentei de fato aos resultados das urnas no último domingo de eleição. Já não estou preocupado em entrar ou saber da velha briga e acusação entre direita e esquerda, muito menos de partido.

Esqueci de muita coisa nos últimos dias, principalmente do dia da eleição. Na verdade, eram poucas as minhas expectativas de futuro para nossa cidade. Acho que foi algo comum entre os eleitores, por isso a grande quantidade de votos brancos e nulos.

Só uma coisa não sai da minha cabeça desde então: a pobreza e desigualdade nas favelas X os interesses políticos dos candidatos. Tudo isso se resume em duas cenas que observei na Rocinha: 

Duas mulheres negras, moradoras, que observei trabalhando na boca de urna para alguns candidatos: a primeira devia ter seus 37 anos, estava acompanhada de seu filho de uns 6 ou 7 anos. O que me chamou a atenção, além de ela estar com o filho, foi o fato de sua perna estar toda enfaixada. Perguntei o que havia acontecido, ela respondeu que tinha sofrido uma queimadura, mas que não podia deixar de trabalhar.

A segunda, uma jovem de 22 anos. Ela trabalhava e carregava seus filhos,  um bebê no colo de menos de 1 ano e mais duas crianças pequenas pelas mãos. Eu perguntei a ela e ela disse que precisava trabalhar de qualquer jeito e tinha que levar as crianças.

Além dessas duas mulheres, muitos outros moradores estavam ali buscando um recurso para sobreviver. Esses candidatos pagavam míseros R$ 50 para uma carga de 10 horas de trabalho, sem intervalo e sem alimentação, e ainda sim muita gente estava nas listas de espera para trabalhar, mesmo na ilegalidade.

O morador já sabe que as promessas não saem do papel e encontram nesse período alguma forma de ganhar algum recurso, já que a maior parte dos políticos só aparece em ano eleitoral. 

Ou seja, o morador pago com R$ 50 está trabalhando para eleger um candidato que vai ganhar quase R$ 20 mil mais diversos benefícios, e que não vai trazer melhorias para a cidade e muito menos para a favela. 

Assim, acabam as eleições e o morador continua sofrendo com o descaso e ausência na favela. Sempre assim! Democracia? 

* Davison Coutinho, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestre em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade