A violência no Rio de Janeiro: a guerra aos pobres

O relatório da ONG HumanRightsWatch, divulgado no último dia 7, denuncia que a polícia do Rio de Janeiro assassinou 8 mil pessoas na última década. Em 2015, foram registradas 645 mortes e em 2016, já são 322 o número de mortes. A ONG critica também a falta de investigação da Policia Civil e do Ministério Público. Segundo a ONG, não é possível que todas essas mortes sejam decorrentes de confrontos, já que só um lado está morrendo. Por exemplo, em 2015, para cada policial morto em serviço no Rio de Janeiro, a polícia matou 24,8 pessoas.

Essas mortem tem alvos certos: pobres, favelados e principalmente negros. Segundo dados do IBGE, 77% dos mortos são negros, 15% são brancos e 8% são desconhecidos. Ou seja, três quartos dos mortos pela polícia eram negros. É na favela que acontecem os assassinatos, mas é também no asfalto que estão os grandes consumidores de drogas. A ONG publicou o relatório “O Bom Policial Tem Medo” - os custos da violência policial no Rio de Janeiro. O relatório aponta que as execuções extrajudiciais causam impacto não só nas vítimas, mas fomenta um ciclo que violência que coloca a vida dos próprios policiais em risco, além de acabar com a relação da polícia e comunidade. 

A polícia quando comete violência com os moradores de favela passa a ser vista como inimiga da favela, recuperando sua função de origem, quando criada em 1809 com a atribuição de prender os escravos fugidos. Na favela, todo sistema de pacificação está sujeito a fracassar se priorizar apenas a colocação de policiais, como se essa fosse a necessidade das comunidades. Na verdade, enquanto não houver a requalificação e treinamento da polícia para atuar na prevenção e não com táticas de guerra, a oferta de serviços públicos com qualidade nas favelas, as oportunidades de profissionalização e emprego para os moradores, principalmente para os jovens, e as escolas que funcionem e formem cidadãos, a redução da violência continuará sendo uma utopia, cada vez mais distante da realidade. 

O relatório da HumanRightsWatch é mais uma prova em números de que essa guerra a droga é na verdade a guerra aos pobres. Nessa guerra morre bandido, morre morador, morre trabalhador e também morrem policiais. É pobre matando pobre. São filhos de trabalhadores, moradores e policiais perdendo seus pais, perdendo suas famílias. A insegurança aumenta na população favelada e também na cidade. O ódio é cada vez mais fomentado em todos os lados.

Já passou da hora de se colocar em pratica uma reforma do sistema de segurança e na politica de combate as drogas no Rio de Janeiro. 

Davison Coutinho, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestre em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade