Os jovens infelizes e os futuro dos jovens da favela

O semiológo, cineasta e escritor Pasolini publicou uma série de artigos que estão reunidos na coletânea Os Jovens Infelizes de Michel Lahud (1990). Pasolini faz duras críticas ao modelo de sociedade em que vivia na Itália. O cineasta tinha paixão em se envolver, pesquisar e retratar em suas obras as periferias e favelas de sua época.

Como um olhar que buscava sempre desnaturalizar os acontecimentos, Pasolini apontava uma dura crítica ao modelo do capitalismo de consumo que começava a transformar os modelos culturais existentes. Segundo ele, esse modelo estava tornando os jovens infelizes, já que estes estavam perdendo sua identidade cultural e não proviam de recurso para atender ao modelo cultural imposto.

O que Pasolini antecipava em seu tempo é o que podemos encontrar na realidade dos milhares de jovens, moradores de favela. Ao se confrontarem com a quantidade de propagandas e ao modelo cultural que exige que para ser "feliz" é preciso ter coisas famosas, celulares objetos e roupas de grife, o jovem da favela, muitas vezes, se torna infeliz de não poder ter acesso e de não poder participar do que seria essa cultura imposta massivamente por todos os meios.

Infelizmente, por faltas de possibilidades, por falta de equilíbrio, ou falta de uma família presente e por tantas outras dificuldades, o jovem encontra nos caminhos ilícitos a forma de se impor com o poder e de poder acessar a esses bens de consumo. Se ele não pode ter por bem, ele busca no crime o acesso a esses produtos e através do poder paralelo ele quer mostrar sua força.

O resultado de todo é esse processo é a violência que vivemos não só nas favelas, como em toda a cidade. Há poucos dias um professor foi assassinado e um adolescente de 14 anos é o acusado pelo crime. Por outro lado, todos dias muitos jovens perdem suas vidas, são assassinados ou presos.

É claro que as punições devem acontecer para que se evite novos crimes, mas é preciso que seja reformulado todo sistema prisional. Na verdade, é preciso que de fato aconteça nas periferias uma grande transformação por parte de uma grande união do poder público e das empresas para que as oportunidades cheguem a esses jovens. Ainda existe um salto muito grande para que jovem da favela consiga vencer os obstáculos da vida.

Há dias uma pesquisa do IBGE mostrou que daqui a 50 anos a população das favelas será mais jovem de que em toda a cidade do Rio de Janeiro. Na favela estará concentrada a maior proporção de habitantes menores de 15 anos. O que nos preocupa já que a infraestrutura da favela ainda é preocupante e não dispõe da qualidade necessária para o futuro desses jovens.  Hoje são muitos fora da escola, sem nenhuma perspectiva de futuro. Alguns líderes do governo se manifestaram afirmando que tem que a cidade tem que se preparar pra os idosos. Sim, de fato vamos ter que se preparar para a população de idosos que será bem maior. Mas é que está sendo feito pelo poder público e pela sociedade para o futuro  desses jovens das favelas?

Prefiro não me antecipar, mas talvez seja necessário para muitos manter essa realidade nas favelas. Afinal, quem será a mão de obra para continuar atender às famílias ricas da cidade?

* Davison Coutinho, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade.