O crack continua destruindo vidas na Maré

Nosso país é considerado o maior consumidor de crack do mundo, com cerca de um milhão de dependentes. Em meio a tanta tristeza e impotência das forças políticas, vemos nas margens da Avenida Brasil, na altura da favela Parque União, o futuro de centenas de jovens se perderem pelo uso do crack. Tanto a prefeitura da cidade quanto o governo do Estado encaram essa situação com tamanho desprezo que chega ao ponto de não reconhecerem o usuário de crack como um ser humano.

Estamos aqui na Maré e vivemos em meio a uma tentativa de ‘pacificação’ do nosso território, porém quem criou a guerra foram eles. Sabemos que a falida política de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro não tem trazido a paz para ninguém e na tentativa de superar essa crise de segurança se combate o tráfico de drogas com mais polícia e mais violência.

Ao que remete o combate à epidemia do crack na Maré, os órgãos públicos preferem tratar os usuários com detenção e cadeia. Em consonância com esta repressão da liberdade desses meninos e meninas está a internação compulsória. Essa medida por fim não segue todas as etapas de um tratamento eficaz e de um acompanhamento posterior à alta do paciente. Na maioria dos casos, os dependentes químicos retornam às ruas e caem novamente no vício. 

Já relatei anteriormente nesta coluna que inúmeros casos de atropelamentos, overdoses, roubos, furtos e tantas outras formas de violência refletem esse quadro de opressão e medo com que os usuários e nós moradores somos obrigados a conviver diariamente. A atuação desastrosa dos órgãos públicos não percebe que só a partir do reconhecimento da humanidade de cada usuário de crack, entendendo que ele é vítima de um problema social, é que traçaremos um novo projeto como solução.

Vemos a morte dos usuários como uma tragédia anunciada, porque a dependência química não é um problema de segurança pública, mas sim de saúde pública atrelada a uma política de assistência social.

Não consigo achar normal ver meninas e meninos caídos nas calçadas do meu bairro por causa da marginalização e consumo desenfreado do crack. Ver jovens que perdem a cada dia o seu direito de viver por causa dessa droga me faz enxergar que a política de assistência social exercida pela prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, assim como a do Governo do Estado, é uma formidável ferramenta para garantir a criminalização da pobreza e o extermínio das juventudes.

*Walmyr Júnior é morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor e representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.