A luta do povo real continua sendo desqualificada

Assisti a um interessante programa sobre Joaquim Nabuco e sua trajetória abolicionista. O contato com a realidade do suplício destinado aos homens e mulheres negras, escravizados de seu país, tiraram-lhe a venda sobre o que até então, em seu pequeno mundo, era tido como convivência forçada, mas pacífica, e até certo ponto respeitosa.

Este episódio me fez pensar mais uma vez na abissal distância entre o Brasil real e o Brasil oficial. Entre aqueles que se dispuseram a legislar, ou mesmo em gerenciar os bens comuns, e que cada vez mais se colocam a quilômetros da vontade daqueles que mais precisam.

O mesmo acontece com grande parte da sociedade, alheia à realidade. Nabuco, na defesa de um negro escravo que havia matado um delegado, reconheceu e fez deste reconhecimento, aliado a um nível de consciência da gravidade do que ocorria na sociedade escravagista, que o maior vitimado de toda a história e a quem a própria sociedade poderia ser acusada de causar danos com status de crime, era ninguém menos do que o próprio escravo acusado. 

Assim seguimos até aqui, 2015, século XXI, amarrando ao poste e espancando pessoas, tentando incendiar acampamentos, que por um simples detalhe têm pessoas vivendo neles (seres humanos). Pessoas que se sentem e até são de fato privilegiadas por sua cor e status, que querem estar acima da lei e passar pelos aeroportos com qualquer tipo de material sem serem "incomodadas", mas que são categóricas quanto à redução da maioridade penal.

Não queremos a cura pelo e através do tratamento da causa. Queremos apenas paliativos. Porque a causa pode ser a finalização de muitos privilégios herdados de um país construído com privilégios e favores. Onde a luta do povo do Brasil real é desqualificada e colocada à sombra.

Não pode ser marca de conquista controlar pessoas com força de polícia, ao invés de protegê-las, encarcerar menores em prisões do que cuidar deles, negar a existência de racismo e publicar em veículos de mídia que personagens infantis com cabelos rastafári são "imperfeitos" . 

O estrago que Nabuco previu, talvez não se comparasse ao que produzimos em número de presos e mortos, oriundos de um único recorte social e cromático. Aguardemos por dias melhores.

"A nossa luta é todo dia. Favela é cidade. Não aos Autos de Resistência, à GENTRIFICAÇÃO, à REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL , ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL,ao VOTO OBRIGATÓRIO, ao MACHISMO, À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER e à REMOÇÃO!"


*Membro da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do GrupoArteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.(Twitter/@ MncaSFrancisco)