Denegrindo o que é Negro

Venho por meio desta coluna tornar pública a nota do Coletivo Afro de Cultura Urbana, onde na defesa das tradições e culturas africanas faz bradar o grito de respeito. Se o assunto da vez é a violência, pedimos a paz. Mas se a paz for fruto da luta, estamos aqui para lutar.

“O Coletivo Afro de Cultura Urbana nasceu de uma conversa entre amigos na “Casa do Nando” Travessa do Sereno,43, no Quilombo da Pedra do Sal e a casa, que  já é velha conhecida por seus saraus, rodas de samba e bate papo entre amigos, tem mais uma tarefa, de  uma vez por semana abrigar as pessoas que pensam em uma alternativa a esses movimentos que ai estão, para se organizarem politicamente e pensarem alternativas culturais acessíveis para o povo preto, assistirem a filmes e documentários, além de abrigar um pequeno seminário, que acontece todo segundo sábado do mês. Feitas as apresentações, discorreremos sobre a nossa primeira e vitoriosa luta, que foi o adiamento de uma peça teatral que seria encenada a pedra do Sal, homenageando negros, que seriam interpretados por brancos.

Em tempos de apedrejamentos e Gladiadores do altar, que fomentam o crescimento absurdo da intolerância religiosa, mortes e ataques racistas em nosso país, não podemos permitir a apropriação de forma pejorativa e agressiva da nossa cultura, embranquecendo-a até nos apagar de vez. No intuito de barrar a prática de tirarem-nos o protagonismo de nossa própria história, estivemos no IPN a pedido do diretor da peça “Alabá e a pequena África” para possíveis esclarecimentos em uma roda de conversa.

Concedemos à direção, escritores e produtores da peça, a chance e oportunidade de "ao vivo", refletirem a partir do que lá foi exposto, porém, tivemos a manifestação explicita do racismo. Foram nos ditas frases do tipo:

“Na minha produção não cabe uma yalorização negra, não neste momento; não consigo entender por que uma mãe de santo negra traria uma fidelização cultural...”

“A intenção foi estar junto das lideranças. Vim aqui no Porto algumas vezes, tomei ‘cervejinha’ com algumas pessoas”;

“Tenho cinco amigos negros, que ‘inclusive’ são meus amigos, mas não puderam fazer, estão envolvidos em outros trabalhos”;

 Não há como homenagear a história apagando o que foi escrito e reescrevendo por cima, é essa a ideia de restaurar a história do negro, do porto? O que será feito com a história, com a tradição? Para nós, é muito claro porque não cabe numa produção que fala de pretos, atores pretos dele, pelo mesmo motivo em que o preto, em sua maioria, está sendo posto em papel subalterno. Vale lembrar que para nós pretos e aos praticantes da religião é ofensivo ser colocado nessa peça, atores brancos por que dá dinheiro, gente preta na mídia? Nem pensar, não vende, é uma visão mercadológica também, e o preto não cabe neste espaço; uma visão preconceituosa e discriminatória.

Tomar cervejinha no Porto não o traz o opressor para o nosso lado; pelo contrário, deixa claro qual é o lado deles e, obviamente, nós sabemos porque não sofrem intolerância. Além disso, ter cinco amigos negros não faz de ninguém menos racista – e já sabemos muito bem que este é o discurso preferido daqueles que nos discriminam desde sempre. o discurso do opressor, na tentativa de nos convencerem a fechar nossos próprios grilhões, nos acorrentarmos uns aos outros. Isso não vai colar. Somos protagonistas da nossa própria história, doa a quem doer.

Não daremos nenhum passo atrás no que tange o genocídio do povo preto nem cederemos ante a arrogância do opressor, as explicações não nos convenceram e esse foi o melhor combustível para animar a nossa luta”.

Assinado:

Alessandra Nzinga, Cientista Social,

Fernando Luiz, Consultor Imobiliário 

e Júnior Pavarotti, músico.

 

*Walmyr Júnior é professor. Representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude - CONJUVE. Integra Pastoral da Juventude e a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro