Violência mostra o fracasso do modelo de gestão pública em áreas fundamentais

Todo o destaque dado ao passado dramático do jovem rapaz acusado pela morte trágica do médico na Lagoa Rodrigo de Freitas, não é capaz, e por muito tempo não será capaz de nos fazer enxergar a tragédia e o fracasso do modelo atual de gestão pública em áreas fundamentais como a educação, a saúde e a segurança pública, isso, sem falar na habitação e infraestrutura.

Está cada vez mais óbvio, e por ironia, quanto mais obviedade mais se empanam as mentes das quais esperamos muita serenidade e clareza nestes momentos.

Mas não só a gestão pública, principalmente quando o foco é a parcela mais vulnerável de nossa sociedade, comete equívocos. Nossa sociedade também vem mostrando ou solidificando práticas e pensamentos cada vez mais refratários a uma organização social que nos permita viver com um mínimo de harmonia.

E claro, é a mesma sociedade que ocupa os cargos de gestão e, em os ocupando. potencializa suas ideologias e seus preconceitos. E é aí que mora o perigo, porque, ao contrário do que reza o discurso hipócrita que proferimos por tê-lo naturalizado, não somos cordiais, não somos pacíficos, somos racistas, sim, nós, os brasileiros alegres e hospitaleiros.

E nestes momento de tensão, se expõem os sentimentos mais sórdidos que habitam o coração e os pensamentos dos que de alguma forma detêm os mecanismos de influência, ou de ação.

E todos eles, os pensamentos e os sentimentos, são contra aqueles que não fazem parte, que nunca farão, que nem sonham em fazer, porque não foram privilegiados nem com o direito de sonhar, com a conquista de uma cidadania plena. Cidadãos e cidadãs, de segunda classe, sem importância, que mortos, não diferem muito de sua condição quando vivos e vice-versa, são completamente dispensáveis.

Não importa e nem nunca importará, o fato de não terem escola, ou família, tanto faz, é gente que não conta. Nesse momento, vou me lembrando de um sem número de situações, pessoas, livros, filmes, frases, debates, discussões, e me vem a cena em mente, de um documentário, o "Domésticas", de Gabriel Mascaro.

Uma cena em especial me marcou e ela vem à minha mente neste instante. Nele, adolescentes, filhos dos patrões, filmavam e entrevistavam "suas" domésticas sobre seu cotidiano no trabalho, e seus sentimentos em relação a isso.

A tal cena, é de uma das domésticas, que se não me engano, folgava uma vez por mês e que fala sobre o fato de ter ficado mais ou menos três meses sem ir em casa, porque a mãe de sua patroa havia quebrado o fêmur e não podia ficar sozinha.

Sua única tristeza, a de que no decorrer deste período, seu filho foi assassinado e ela não ter podido estar mais com ele.(tenho dúvida entre se três ou seis meses). Acho que tem algo muito errado em algumas mentes e alguns corações privilegiados deste país.

"A nossa luta é todo dia. Favela é cidade. Não aos Autos de Resistência, à GENTRIFICAÇÃO e ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!"


*Membro da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.(Twitter/@ MncaSFrancisco)