O desafio do jovem da favela e as eleições do Rio

Na noite anterior de minha apresentação do artigo sobre a produção cultural da Rocinha  em um congresso de Design em Gramado, me propus a assistir ao debate dos candidatos ao governo do Rio. Esperava ouvir mais propostas e planos de governo, no entanto, ouvi muitos mais ataques e provocações do que esperava para uma véspera de eleição. A Rocinha, por sua vez, foi citada em vários momentos, alguns ruins e em outros como exemplo de comunidade.

Muito se fala sobre cultura e educação, mas pouco se tem feito para uma real transformação das favelas a partir do conhecimento. Alguns falam em desmilitarizar, outros são a favor da liberação das drogas, uns são a favor da UPP e outros do fim da PM. No entanto, não consigo enxergar propostas concretas para que os moradores das favelas consigam ter a paz e a transformação que tanto buscam. 

Os jovens e crianças das comunidades precisam da possibilidade de escolherem seus destinos. O crime e a marginalidade têm sido a única opção de muitos invisíveis de nossa sociedade e o resultado é a violência que vivemos em nosso estado. Não será possível ter nenhuma melhoria se o investimento não for na educação de base. Quando falo em educação, não me refiro às escolas onde os alunos vão e não têm alimentação, faltam professores, há sempre intervalos e tempos vagos. Mas sim de uma escola de verdade, que preze a construção do conhecimento e a transformação dos jovens em cidadãos. 

É inadmissível a evasão escolar que temos dos alunos, moradores da Rocinha. É um absurdo crianças precisarem contar com a sorte para conseguirem uma vaga na creche pública. E é uma vergonha a situação das creches comunitárias locais. É vergonhoso os ônibus lotados que levam os alunos para escolas. Com tantos problemas, não é preciso muita investigação para entender os motivos da evasão e consequentemente da violência. 

Fica claro que o grande desafio para o jovem da favela é a incerteza do futuro, é uma vida cercada de obstáculos, onde tem que se enfrentar a desagregação social, a falta de oportunidades e de escolhas.  A cultura e educação têm o potencial de transformar essas vidas e oferecer um futuro diferente para as nossas comunidades. Elas precisam ser valorizadas e serem prioridades dentro das favelas. 

* Davison Coutinho, 24 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade.