Brasil e polícia estão para os negros como Estado Islâmico está para os reféns

Na última semana recebi no twitter a notícia sobre o aumento do número de americanos que começa a questionar a verdadeira imparcialidade da polícia e  do sistema judiciário americano em relação à cor dos que são alvo destas instituições. 

Esta discussão começou a tomar maiores proporções após o caso do assassinato do jovem de 18 anos, desarmado, com seis tiros por um policial branco na cidade de Ferguson, no Missouri (EUA). 

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos iniciou uma extensa investigação policial para apurar todos os fatos que levaram ao ato, que incendiou a cidade e trouxe a discussão racial de volta na maior potência mundial e palco de uma das maiores lutas pelos direitos civis dos negros. O trabalho procurará identificar as práticas empregadas pela polícia nos últimos anos, principalmente durante a repressão aos protestos gerados após o policial Darren Wilson disparar seis vezes contra Michael Brown. 

Vocês podem se perguntar qual o motivo de trazer velhas notícias, e ainda por cima sobre um caso acontecido em uma cidade dos Estados Unidos. A grande questão é que as notícias parecem ser sempre as mesmas e de alguma forma, lá como aqui - aqui muito mais - sem dúvida nenhuma matamos nossos jovens com uma facilidade inenarrável. Sim, matamos. Porque é a sociedade quem mata. 

Se não toda ela, pelo menos parte dela acha natural, ou no mínimo aceitável. O adendo "não tinha passagem pela polícia" acrescido às notícias sobre jovens em favelas, principalmente, soa natural, não deveria. Isso não é decente. Sinaliza que, do contrário, a morte seria “aceitável” e que o destino certo de um jovem desse lugar é no mínimo ter alguma “mancha” no seu currículo. Ao ouvir sobre um jovem, na maioria das vezes negro, morto da mesma forma de sempre e no mesmo cenário, sempre uma rua, beco ou viela das grandes periferias e favelas de nossas cidades, não há nenhum tipo de questionamento. 

Não ter passagem pela polícia causa até um pouquinho de consternação se a vítima for a óbito. Aquela mesma similar a que sentimos quando vemos um passarinho ou um filhotinho morto caído do ninho ou uma baleia encalhada em uma de nossas praias. 

Não questionamos nosso modelo de sociedade que assina uma autorização silenciosa para o extermínio desses jovens. É preciso parar essa máquina de produzir cadáveres e destruir famílias. Que sociedade queremos ser, ou melhor, o que nos tornamos? 

Seguiremos assim dessa forma, sem questionarmos, esse consentimento invisível e velado que dá todo o aval para entulhar o sistema carcerário de corpos negros, como se a miséria humana estivesse destinada ou diretamente atrelada a um só grupo populacional? Como se estes fossem  um Caim tatuado pela justiça divina para sempre, como forma de exibir seu pecado e distingui-lo dos demais. 

Não se faz aqui - pela capacidade intelectual que tenho a certeza fazer parte da grande parcela dos leitores deste veículo - necessária  uma dissertação em relação à cor dos condenados desta nossa terra de meu Deus com a marca da personagem bíblica. 

Ouvi uma matéria sobre um grupo de jovens de classe média que roubava contas em Goiânia e São Paulo utilizando a internet. Um grande escritor e compositor, membro de uma banda de rock, convidado do programa que veiculou a notícia, disse que para estes meninos, aquilo era uma espécie de "brincadeira" de classe média, como aqueles que roubaram a casa da Paris Hilton, em Beverly Hills. Pois é, os meninos brancos filhos da classe média e da elite só fazem isso por "brincadeira", não tem ainda capacidade de entender o real peso de suas ações, suas inconsequências juvenis. 

Aos meninos aqui da favela e das periferias dessa nossa Brasilis, redução da maioridade penal, leis cada vez mais severas, redução da possibilidade de circulação na cidade, tratamento aviltante nos chamados sistemas correcionais. Porque estes sim, tem de fato consciência do que fazem. Já os outros estão amadurecendo, não têm muita noção do real resultado de suas “ações”. Enfim, como já falei aqui e de forma recorrente, talvez seja a hora ou melhor já passou da hora de, por força de lei primeiro e conscientização em seguida, acabar com a atitude racista de nossas instituições, de ter no indivíduo negro (seja homem ou mulher) seu principal alvo. 

Aqui, nem relatório das Nações Unidas serve como disparador de ações firmes contra essa barbárie. O Brasil e sua polícia estão para seus jovens negros moradores das favelas como o Estado Islâmico para os seus alvos estrangeiros, decapitados sem nenhuma cerimônia. 

Não há cerimônia nenhuma, pelo contrário. Contra o EI, há uma coalizão de forças, pois é doloroso ao mundo ver todos aqueles homens brancos, europeus em sua maioria, sendo alvo de extremistas religiosos fundamentalistas. E nós? 

Mais uma vez, em pleno pleito eleitoral, não podemos deixar assuntos importantes como este, que são vitais para a manutenção de uma sociedade no mínimo coerente com a vigência um sistema democrático de fato.

"A nossa luta é todo dia. Favela é cidade. Não à GENTRIFICAÇÃO e ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!"

*Membro da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.(Twitter/@MncaSFrancisco)